quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A estranha predileção de Deus pelos improváveis




Quando Samuel olhou para Eliabe, o primogênito de Jessé, pensou que estava diante do futuro rei de Israel. Afinal, era o filho mais velho, um rapaz de porte e beleza que não passavam despercebidos, com experiência nas batalhas, o perfil que representava bem o Povo de Deus. O perfil do primeiro rei que Deus escolhera. “Certamente é este”, pensou.

Mas Deus o preveniu contra a obviedade do olhar humano, e frustrou a expectativa de todos escolhendo o mais novo da casa, o mais inexperiente, o garoto bonitinho que nunca tinha empunhado uma espada. Que quando muito atirava pedrinhas em animais e passava seus dias cumprindo as tarefas mais insignificantes da família. Que gostava de tocar e cantar! Um jovem doce com alma de artista. Essa foi a escolha de Deus.

Já deixei de fazer algumas coisas na vida, pelas quais me senti verdadeiramente impelida, por não me achar credenciada para tal. Por, de repente, não ter o respaldo de um certificado, ou alguma característica especial que me abonasse. Típico de quem deseja ser visto, aprovado e reconhecido, de quem quer merecer o crédito das coisas, fazer acontecer por seus próprios méritos.

Foi lendo sobre essas escolhas esdrúxulas de Deus que eu percebi que, em todos os aspectos da nossa vida, o propósito dEle nunca foi nos dar o mérito de nada, mas ter o mérito através de nós. É isso que nos dignifica: mostrar Deus. Mostrar que é Ele. Que é através dEle. Que é por causa dEle. Que é para Ele. Sempre Ele. Nunca nós. Essa era a diferença básica entre os dois reis: para Saul ele era o rei e mataria pra se manter no trono; para Davi Deus é quem sempre seria o Rei de Israel, apesar de ser ele a sentar no trono.

Ah, essa mania de Deus de olhar para os fracos e deles extrair Sua força, olhar para os feios e neles refletir Sua beleza, olhar para os desprezíveis e neles imprimir Seu caráter! Olhar para Pedro, o traidor, e revesti-lo de fidelidade e ousadia em tempos de perseguição. Olhar para Paulo, o fariseu engajado, e fazê-lo Seu escravo. Olhar para Moisés, o inseguro, e conferir-lhe liderança. Olhar para Gideão, o medroso, e conceder-lhe coragem. Olhar para Raabe, a prostituta estrangeira, e conceder-lhe o privilégio da linhagem do Seu Filho.

Não é confortável, não é encorajador, nem é louvável, mas é um desejo que cresce no meu coração, esquecer a fugacidade das convenções para ser uma dessas improbabilidades deu Deus.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Crer ou não crer em Deus é insignificante




Vivemos um tempo em que a descrença na existência de Deus é algo bastante comum. Apesar de os crentes – independente de religião – ainda serem maioria e muitos ainda ficarem pasmados com uma visão ateísta, este posicionamento não só tem crescido, como tem ganhado voz nos últimos tempos.

No entanto, ainda que seja um movimento crescente, há que se considerar que se trata de um pensamento muito recente na história da humanidade. Por mais que muitos filósofos gregos da era pré-socrática tenham se autodeclarado ateus, esse comportamento era de um em um milhão na antiguidade, e o termo atheos, utilizado quase que exclusivamente nos cenários de debates filosóficos, tinha sentido pejorativo e era considerado pelo homem comum um insulto. A bem da verdade, o termo “ateísmo” como é compreendido hoje, foi usado pela primeira vez na Europa apenas no final do Séc. XVIII, e relacionado especificamente ao Deus abraâmico – ou o Deus cristão, no nosso contexto.

Feitas essas considerações históricas, é compreensível que Davi tenha escrito no Salmo 53, “Diz o tolo em seu coração: não há Deus!”. O que hoje é sinônimo de esclarecimento, inteligência e brilhantismo, para um hebreu que viveu mil anos antes da era cristã era pura tolice – assim como para quaisquer outros povos da época.

Todos nós já vivenciamos ou presenciamos algum tipo de discussão envolvendo a defesa da crença na existência de Deus. Há pouco tempo surgiu até uma franquia de filmes com esse enredo. Há tanto cristãos que desejam enfiar a crença em Deus goela abaixo dos descrentes, como ateus “pregadores” da própria falta de fé – ou da fé na sua falta de fé (!). A grande verdade é que Deus não está nem um pouco interessado se alguém crê na sua existência ou não. Todo esforço em torno disso é inútil. Não acreditar em Deus, assim como meramente e irrelevantemente crer que Ele exista, ou ainda crê-lo unicamente como reflexo de moral e ética não tem a menor importância para Deus.

A tentativa de autossuficiência humana é a grande responsável pela rejeição a Deus. Usamos toda a nossa capacidade intelectual para entender aquilo que é ininteligível, para provar o que é improvável, para explicar o inexplicável. E porque não aceitamos que estamos aquém disso, negamos. É de uma ingenuidade profunda acreditar que Deus possa caber dentro do raciocínio humano. Nunca foi a intenção de Deus ser entendido, explicado, visto. Seu objetivo para com o homem sempre foi ser experimentado.

É impossível provar a existência de Deus, mas é totalmente possível conhece-lo. E não tem nada de místico ou sobrenatural nas minhas palavras. Deus nos criou com sentidos perfeitos e perfeitamente idealizados para se revelar a nós através deles. A Sua Palavra lida se torna viva em nossa consciência para ouvirmos, vermos e percebermos o que Ele desejar, para vivermos a vida em Sua companhia, tudo de forma tão natural como a nossa respiração.

A grande novidade, tanto para os ateus quanto para os meramente não ateus, é que a fé não é uma escolha nossa. Nós é que somos uma escolha dela. Deus é soberano, o Senhor de tudo e de todos. Ele pega ou descarta o que quer. E se somos uma escolha dEle - ou não -, não há o que fazer a respeito. Nem mesmo negar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Palavra torpe... Hã?!




Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.


(Antes de qualquer coisa gostaria de dizer que o que me leva a escrever esse texto são as minhas próprias dificuldades com o falar e o desconforto que isso me causa).

Acho que estamos acostumados a fazer uma aplicação incorreta deste texto. Talvez não exatamente incorreta, mas incompleta. Ou é novidade que todos nós pensamos única e exclusivamente em palavrões quando o lemos?

Nos últimos dias todo este capítulo de Efésios fez parte das leituras diárias do nosso ano bíblico (@ipbitaparica), e pude observar que o contexto em que essa recomendação paulina está inserida vai muito além de xingamentos em si, tem a ver com o trato dos cristãos uns com os outros de uma forma mais ampla.

Se formos ao dicionário português ele vai dizer que torpe é uma palavra que traduz indecência, imoralidade, indecoro, algo nojento, vil, que causa repulsa. Ok, um significado adequado em se tratando de palavrões. No entanto, essa palavra foi usada para traduzir um termo grego que em seu sentido mais amplo queria denotar algo corrompido, algo que está estragado e que, se usado, causará dano. O dicionário português também diz que uma derivação da palavra torpe é o termo entorpecer, que significa enfraquecer, debilitar, abater, desanimar, desfalecer, dentre outros.

Acredito que quando Paulo diz ao longo deste capítulo “sejam, dóceis, pacientes (...), esforcem-se para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (...), dispam-se do velho homem (...), quando ficarem irados, não pequem (...), livrem-se de toda indignação, ira, gritaria e calúnia(...)”, ele queira dizer bem mais do que simplesmente “não xinguem. E não estou defendendo com isso que podemos xingar livremente! Só gostaria que pensassem comigo que muitas vezes a palavra que “entorpece” (o outro), torna fraco, desanima, põe em descrédito, estraga o dia, causa dano, nem sempre é a de baixo calão. Muitas vezes ela é dita com o melhor da norma culta. Quantas vezes nossas palavras polidas dirigidas ao outro estão tão podres de significados e intenções quanto qualquer termo chulo e depravado berrado nas sarjetas. E detalhe, ditas “àquele por quem também Cristo morreu”, ou seja, a quem Ele ama tanto quanto a mim.

E o que endossa esse pensamento é o complemento do versículo, “mas apenas a (palavra) que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade”. Em vez de denegrir, valorize. Em vez de enfraquecer, fortaleça. Em vez de causar dano, restaure! Em vez de usar a tão aclamada liberdade de expressão para dizer tudo que te vier à mente, use-a para escolher o que dizer. Ou o que não dizer “...conforme a necessidade”. Escolher calar-se também é um ato de liberdade. E antes disso, de sabedoria.

Em suma, ame o outro como a si mesmo. Ou você diria barbaridades a seu próprio respeito?

quarta-feira, 28 de junho de 2017

De quem é o problema?



Outro dia ouvi uma mãe dizendo que a filha adolescente não ajuda em absolutamente nada nos afares domésticos e que ainda deixa tudo jogado por aí. Somente se for por alguma retribuição financeira ou presente ela colabora.

Quando a mãe terminou a frase, três palavras ficaram piscando na minha cabeça como que em luzes fosforescentes: ajuda, retribuição e colabora.

Essas palavras simplesmente não se adequam à realidade familiar. Ajudar é uma atitude que beneficia o outro naquilo que é uma obrigação dele, não minha. Retribuição transmite imediatamente a ideia de troca. E contribuir nos remete ao mesmo significado de ajudar, porém, agrega um componente de voluntariado. No entanto, se está condicionado à uma retribuição então está totalmente fora de contexto na fala dessa mãe.

Mas a grande questão aqui é que o problema é muito maior do que aprender o significado das palavras e suas colocações corretas dentro de um contexto. O problema, de fato, é desconhecer o significado das relações familiares e onde cada um se encaixa dentro desse sistema.

Receio que a nossa geração tem se tornado os piores pais de todos os tempos. Ao mesmo tempo que felizmente saímos do extremo do autoritarismo generalizado, caímos no extremo da complacência exacerbada. Nunca tivemos tanto medo de desagradar nossos filhos, e a psicologia infantil muitas vezes nos ajuda a reforçar essa ideia ensinando como padrão métodos de agregar diversão a todas as tarefas que propomos para eles. Então como vão aprender que as tarefas que não geram algum tipo de prazer também devem ser executadas?

Tarefas domésticas não são a coisa que mais aprecio no mundo. Na verdade elas estão no finalzinho, lá no rodapé mesmo, depois que acabou a pauta da folha na minha lista de preferências pessoais. Mas estão no topo da lista de necessidades da minha família. Percebeu? Necessidades da família. Casa limpa é uma necessidade da família. Roupa lavada, passada e organizada de forma a ser encontrada com facilidade no dia a dia é uma necessidade da família. Comida bem feita - perceba, não é comida sofisticada - é uma necessidade da família. Pia limpa e seca é uma necessidade da família. Banheiro sem mal cheiro é uma necessidade da família. Carro lavado é uma necessidade da família. Quintal livre de acúmulos e lixo é uma necessidade da família.

Daí a pergunta: filhos não fazem parte da família? Essa lista toda não é uma necessidade deles também? Por que a mãe que passou o dia fora, trabalhando, tem que se desdobrar na limpeza da casa enquanto a princesinha está no whatsApp com as amigas? Por que o pai tem que passar o sábado cuidando do quintal, limpando a caixa d’agua e lavando o carro enquanto o príncipe joga no computador? Por que uma mãe e um pai cansados não podem contar com uma sopinha feita pelo filho no fim do dia? Por que muitas vezes chamamos parentes e amigos para o mutirão da pintura do muro e os filhos ficam de fora dessa roda?

Porque nós, pais e mães, não compreendemos ainda que nosso filhos têm responsabilidades no funcionamento da vida familiar. Porque na nossa visão distorcida de que o trabalho é algum tipo de maldição e sofrimento, queremos poupar nossa prole disso. Porque ter uma funcionária doméstica significa erroneamente que nosso pimpolhos (e nós mesmos!) não precisam sequer aprender a desvirar a meia do avesso. Porque eles ocupam posições hierárquicas equivocadas na família. Porque queremos ter os filhos, mas não queremos ter o trabalho de educá-los para a vida desde cedo.

Acho meio tarde pra essa mãe querer que a filha adolescente “contribua” se quando ela ainda era criança não foi ensinada a guardar os próprios brinquedos, a levar a própria roupa suja pro cesto, a jogar o lixo na lixeira, a guardar a mochila e o tênis ao chegar da escola, a colocar o prato e o copo sujos na pia quando ela ainda não tinha tamanho pra lavá-los. E, Principalmente, a entender que essas ações eram obrigação dela, não um favor pra mamãe. Isso se chama criar consciência.

Precisamos acordar como pais e entender que os mais prejudicados com a ausência de educação – em todos os aspectos da vida – serão nossos filhos. E precisamos, antes deles, criar nossa própria consciência de que faz parte da vida prender a se virar e não achar que isso é uma injustiça.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mãe às avessas



Ser mãe seguramente foi a coisa mais inusitada que já fiz na vida. Vivo essa experiência há quatro anos, cinco se eu incluir o período da gravidez, e a cada dia que passa, mais incertos são os meus passos nessa jornada.

Não é novidade pra ninguém que a maternidade nunca me encantou. Tive muitos sobrinhos desde muito cedo, então a convivência com crianças nunca foi uma novidade para mim. Tive um sobrinho em particular que era uma criança especial, de quem eu ajudei a cuidar durante vários anos da minha adolescência, e, a despeito de todo amor que eu sentia por ele, sua história foi uma grande desmotivação para mim em relação a filhos. Soma-se a isso a minha personalidade impaciente e acho que a minha própria natureza alheia à infância. Ou seja, eu não tenho perfil maternal.

Não foi fácil amadurecer a ideia de ter um filho, mas foi muito natural. O fato de não temos família fazendo pressão ajudou bastante. Outro fator importante foi o tempo. Nada como a maturidade para colocar nossas ideias no lugar, saber quem fomos, quem nos tornamos e o que ainda queremos ser. E foi assim, de forma completamente racional depois de dez anos de casamento que decidimos, eu e Nilton, que não arriscaríamos não formar uma família. Achamos que teríamos mais a perder num futuro sem um filho do que no presente com um. E assim resolvemos que era o momento, afinal meu prazo de validade estava pra vencer já que os trinta e cinco tinham chegado. Não houve apelação de instinto maternal, não houve aquela sensação de necessidade que dizem acontecer em algum momento do casamento, nada emocional envolvido. Apenas decidimos.

Acho que ainda é muito cedo pra dizer que foi a melhor decisão que tomei na vida e, acreditem, eu sei que é chocante para a maioria das pessoas ouvir isso de uma mãe. Afinal vivemos num mundo onde a ideia da maternidade é tão povoada de magia e encantamento que destoar disso nos torna pessoas horrendas. A verdade é que eu vivo (hoje menos intensamente) muitos conflitos interiores desde que o Felipe nasceu. Viver entre o amor descomunal que conheci ao tê-lo e a negação de mim mesma todos os dias desde então é algo com o qual não consigo lidar muitas vezes. Acho que essa aflição é muito própria do nosso tempo. Somos uma geração em uma transição histórica de valores, comportamentos, ideias, em que ser mãe se tornou apenas mais uma de nossas atribuições em pé de igualdade com tantas outras, por vezes até mais importantes. Ideologicamente não nascemos mais exclusivamente para ser mãe. Nascemos para ser o que quisermos.

Em contrapartida, é emocionante lembrar do meu estado de espírito durante a gravidez. Era incrível como eu me sentia plena em todos os aspectos enquanto gerava vida dentro de mim. Eu me sentia tão bonita que isso contagiava as pessoas ao meu redor. Elas me elogiavam! Eu estava tão segura, tão capaz, tão suficiente! E uma certeza absolutamente nova e que me espanta até hoje me invadiu naqueles dias: eu estou sendo o que eu nasci para ser. Não era uma ideia, a conclusão de uma análise, nada racionalizado. Era uma certeza sentida, vivida.

Acho que essa certeza é a grande responsável pelos meus conflitos. Porque cumprir o propósito da minha existência se estendeu para além daquela fase encantadora da gestação, e passou a coexistir com a anulação das minhas próprias vontades. A certeza virou dúvida e se reduziu a Insistir em achar, pelas experiências do cotidiano, que eu “não tenho perfil”, quando a experiência de gerar um filho me contou tão secretamente que eu existo para isso. Eu que sempre quis existir para tantas outras coisas...

A maternidade tem descortinado um mundo totalmente novo à minha frente. Novo e por vezes assustador. Um mundo de liberdade dosada, de abrir mão, de depender de outros, de descobrir que tenho habilidades e possibilidades incríveis, ao mesmo tempo que ressaltam diante de mim os meus piores defeitos, muitos dos quais me angustia não conseguir me livrar deles nem pelo meu filho. Felipe revelou o melhor e o pior de mim. E ele vai ter que conviver com isso. E isso o influenciará diretamente. E eu tremo só em pensar nessas coisas.

O que eu nasci pra ser é muito maior do que quem eu fui até cinco anos atrás. Ser alguém para si mesmo é cômodo, prazeroso, compreensível. Ser alguém para o outro é desafiador e completamente imprevisível.

Acredito que um dia olharei para o Felipe com um olhar mais seguro sobre quem eu nasci pra ser. Hoje me basta (e tem que bastar!) a alegria de tê-lo em meu colo, o amor tão puro que compartilhamos no olhar, nas brincadeiras, nas gargalhadas, nas declarações de carinho, no cuidado diário. E a vontade imensa de que ele seja a pessoa mais feliz do mundo!