segunda-feira, 24 de março de 2008

A vez dos peixes

Sei que as comemorações pascoais já passaram, mas quero aproveitar os ares que ainda nos remetem à data para contar a vocês sobre um costume da minha terra nessa época.

Como se sabe, muita gente, especialmente os adeptos da religião católica, tem o hábito de não comer carne vermelha durante a quaresma e os festejos pascoais, substituindo o prato por peixe. A explicação é que a igreja recomenda abstinência de certas comidas e a prática de jejum, levando os fiéis a um tempo de reflexão sobre suas crenças. O costume também leva à reverência ao corpo (carne) e sangue de Cristo derramado na cruz. Outra explicação interessante que encontrei na internet se refere a dados históricos. Houve períodos em que a carne não era um alimento consumido diariamente, seu consumo se restringia a dias de festa e alegria. Como a Quaresma e a Semana Santa retratam a morte de Cristo, tira-se o ingrediente que representa a alegria.

Nunca tive esse costume, até porque nunca fui católica e tive meus ensinamentos cristãos baseados na bíblia, a qual não se refere em nenhum momento a essa prática. Muito pelo contrário, na instituição na páscoa dos judeus no Egito, um dos pratos do cardápio estabelecido pelo próprio Deus foi cordeiro assado. E para mim, a morte e ressurreição de Cristo representam a maior alegria que o ser humano pode ter em sua vida, a alegria da salvação!

De qualquer forma, não vejo mal algum em comer ou deixar de comer o que quer que seja. Acho que vale mesmo é a intenção por trás do ato. Uma prática qualquer motivada apenas pela tradição não tem valor algum, mas se ela leva o praticante a uma comunhão maior com Deus, isso é o que importa verdadeiramente.

Acabei desviando o assunto para o lado religioso e esqueci o cultural, que é sobre o que realmente quero falar. Pois bem, voltemos a ele.

Aqui no Espírito Santo, faz tempo que as festas pascoais já viraram sinônimo de rentabilidade no comércio gastronômico. E este post nada tem a ver com ovos de chocolate. Como a maioria das pessoas consome peixe nesse período, a tradição por aqui agregou um toque regional. Aqui não se come simplesmente peixe, mas Torta Capixaba. Seus principais ingredientes são o bacalhau e o palmito, que chegam a custar pequenas fortunas nessa época. Mas o sabor... Hummm... Só comendo para saber. E, por ironia, eu não posso comer!!! Sou extremamente alérgica, já comentei isso aqui. Um pedacinho de bacalhau e meu corpo empola completamente. Tenho mesmo que me contentar só com o cheiro :(



A tradição de comer peixes e mariscos no Brasil, e em especial no Espírito santo, nesta data religiosa vem da época da colonização. A Igreja Católica, como tinha papel muito importante junto ao Estado português, pregava a prática e este a aceitou. Os ricos comiam bacalhau importado de Portugal enquanto os pobres comiam uma fritada de mariscos da região. Mas a tal fritada era tão boa que acabou por agradar à burguesia, e mais tarde, o bacalhau foi adicionado a ela dando origem à torta. O palmito entrou como ingrediente para dar consistência ao prato, visto que era abundante na região e estavam ao alcance de todos.

O mais recente ingrediente que não pode faltar na produção da torta é a panela de barro confeccionada pelas paneleiras capixabas. A confecção da peça tem grande representação no papel social da Grande Vitória. As chamadas “Paneleiras de Goiabeiras”, por se tratar de moradoras do bairro Goiabeiras situado em Vitória, são organizadas numa cooperativa que funciona num galpão aberto à visitação de turistas que desejam adquirir as peças e acompanhar sua produção, que é totalmente artesanal. O barro é extraído da região e a modelagem é manual. Aqui você vê o passo-a-passo da confecção e um pouco mais de história sobre as paneleiras. Então, senhoras e senhores, torta feita em panela que não seja de barro pode até ser torta, mas não é capixaba, hehe!

Ai, ai, toda essa história me deixou com água na boca. Mas já que não posso comer a tal Torta Capixaba, vou ver se consigo fazer uma imitação. Se der certo, depois coloco no Livro de Receitas. E para quem quiser se divertir na cozinha e, de quebra, saborear esse prato tipicamente capixaba, achei uma receita da legítima torta na internet e coloquei aqui para vocês. Bom apetite e comam por mim!

14 comentários:

Georgia disse...

Primeeeeeeira!!!

Georgia disse...

Olha que eu já queria comprar bacalhau agora tenho um motivo URGENTE para fazê-lo. A panela de barro eu tenho uma de Portugal, hehehehe, e vou fazer a torta. Tanto faz se vai sair torta o importante é o bacalhau. Que pena que vc é alérgica.

Vou lá ler a receita.

Beijao

Divinius disse...

Gostei de ler :)*

Andréia disse...

oiee!! eu tbm não me grilo com a tradição de comer carne, eu como qualquer coisa mas como amo peixe e nessa época do ano tem peixe pra todo lado eu como e muito... essa torta parece maravilhosa... vou salvar a receita..

beijos querida e te indique um selo no meu blog
ate

Georgia disse...

Célia, desculpa o recado assim mas creio que você vai entender...

Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:
O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?

Que acontecerá no proximo dia 18 de abril, dia nacional do livro.

O post convocatoria voce pode ler no blog da Georgia (http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca (www.meiroca.com).

Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentario no blog da Georgia ou da Meiroca, para que possamos te incluir.

Participe e divulgue em seu blog.

Georgia e Meire

vivendo disse...

Celinha,
por alguns instantes fui ao Espírito Santo!!Que delícia essa torta, deu água na boca!!Vou fazer!!!Fiz uma bacalhoada no domingo!!Gosto muito!!Eu passei muitos anos da vida sem gostar de bacalhau, até que um dia venci essa situação e hoje é um dos pratos que eu mais gosto.Chato essa alergia!!Logo com bacalhau que é tão gostoso!!beijo, Vivi

Casamento feliz disse...

Eu tb não costumo deixar de comer nada e amo um pexinnho

Beijos e boa semana

Flávio Rod. disse...

Eu já ia lhe pedir para colocar a receita! Pena que você não pode saboreá-la! Mas suas informações tem demonstrado a força cultural do Espírito Santo! Um abraço!

Grace Olsson disse...

Eu nao tenho intestino para comer carne. Me faz mal. E na Semana Santa, eu como peixe e vou além:nem envolvimento íntimo com meu marido eu tenho.Carrego isso da minha infância, pois que minha mãe era religiosa.Pode ser piegas, me sinto mais próxima de Deus se ponho meus pensamento de forma iluminada(nao apenas na Pascoa) e fico matutando sobre o mundo.
Panelas de barro lembram a minha infância e bacalhau lembra o lado mais dificil que minha familia viveu. Antigamente, 3 décadas atrás quem comia bacalhau era pessoa muito pobre. E nem vou contar como comi...
Beijos e dias felzies

Taty disse...

Então, Célia, eu nunca fui adepta a essa tradição da carne não. Acho q o sacrifício maior foi feito por Ele justamente pra nos poupar. Tenho uma opinião muito avessa a q os católicos têm, mas respeito totalmente. E concordo com vc, o q vale é a intenção com q se pratica o ato.
Boa semana.
Um beijo!!

Jannine L'Amour disse...

Ai amiga, vc sabe que sou católica de carteirinha, e fico sem comer peixe desde a quinta-feira pelos motivos que vc tão bem explicou, vivemos primeiro o sofrimento, a abistinência para depois comeorarmos a vida, a ressurreição...pense que eu esperei até o sábado pelo bife de chourizo lá em Bs As :). Ai flor, vai lá sim, a cidade é linda e vc vai amar!

Lou Mello disse...

No tempo de faculdade, uma de minhas melhores amigas era a Capi. Esse apelido tem a ver com a origem dela, ou seja, Espírito Santo. Então capixaba virou capi. Ela nos levou para conhecer a Ilha dos Franceses, em frente a praia de Itaipava, um passeio inesquecível. Devia ter mudado para lá e nunca mais ter voltado. E você ainda complica mais, exaltando essas comidas deliciosas.

Aninha Pontes disse...

Ah! Meu Deus, eu não mereço esse sofrimento.
Que delícia. Adoro bacalhau, adoro palmito.
Claro, que hoje não posso fazer, não tenho nenhum dos dois.
Mas vou experimentar, prometo, depois te conto.
Não será a torta capixaba, não temho a panela de barro, mas vou fazer.
Beijos menina.

Celia Rodrigues disse...

Geórgia, faça. Não vai se arrepender! E estamos juntas na blogagem de 18 de abril! Beijo!

Obrigada, Divinius!

Andréia, a data para mim é só um pretexto para saborear um bom peixinho, que não seja bacalhau, claro, rs. Obrigada pelo selo! Beijo!

É Vivi, muito chato mesmo não poder comer algo que se gosta. Que bom que gostou da receita! Beijo!

Eu também, Fabi!

Oi Flávio! Viu como me antecipei ao seu pedido? Pois é, a idéia é mostra às pessoas as belezas do Espírito Santo da melhor maneira possível. Tem jeito melhor do que com essa delícia? Um abraço!

Grace, a família influencia bastante nossos costumes, até mesmo os religiosos.
É sempre bom lembrar os momentos difíceis da nossa vida, não para sofrê-los de novo, mas para vermos o quanto somos abençoados no presente. Grande abraço!

Você pensa como eu, Taty. O que contamina o homem é o que sai da boca e não o que entra por ela. Beijo!

Jan, é como eu falei. Só a tradição não diz nada. O que importa é a intenção do coração. Quando precisamos estabelecer uma relação mais íntima com Deus com uma determinada finalidade, seja quando for, não nos dispomos ao jejum? E ele atende ao nosso sacrifício. Beijo, amiga!

Pois é, Lou. Quem sabe eu te convenço a conhecer o Espírito Santo e suas delícias. Mas periga você querer ficar por aqui... Abraço!

Aninha, sofrimento é o meu que tenho que mostrar tudo isso a vocês sem poder provar nem um cadinho :(
Beijo, querida!