terça-feira, 11 de novembro de 2008

Adoção, um ato de responsabilidade

Quando falamos em adoção, o que normalmente nos ocorre é a visão de um ato heróico, solidário, amável, altruísta. E realmente não deixa de ser. Mas, na maioria das vezes, nos falha a percepção de que essa é uma atitude que deve ser tomada com total consciência e com os pés bem cravados no chão. Antes de ser um ato de amor tão somente, deve ser um ato de extrema responsabilidade. Digo isso porque já tive um caso de adoção na família e que, infelizmente, não foi bem sucedido.

A visão um tanto romântica e a falta de informação e de pesquisa sobre o assunto, muitas vezes leva as pessoas a tomarem decisões sem antes refletir sobre elas. Isso aconteceu com uma das minhas irmãs. Ela e o marido acompanharam minha cunhada, que queria adotar uma menina, à casa de uma mãe que estava doando os quatro filhos. Chegando lá minha irmã viu um menininho de dois anos sentado embaixo da mesa comendo um prato de arroz com feijão. Num impulso, ela e o marido resolveram ficar com o menino. Até aí “tudo bem”. O problema é que eles não tinham perfil de pais adotivos. Nunca antes tinham falado a respeito, não planejavam isso e não estavam emocionalmente preparados para receber o menino. A adoção foi baseada num ato de piedade momentânea.

Em casa, a distinção entre o filho adotivo e o filho natural era evidente, por mais que não fosse intencional. Parte da nossa família rejeitou o menino pelo simples fato de ele ser negro. E finalmente, o casamento de minha irmã desmoronou e ela ficou com a responsabilidade exclusiva de criar uma criança que ela nunca quis de verdade. Tornou-se agressiva e intolerante com ele. Isso resultou na total insubordinação do menino e na sua saída de casa aos 15 anos. Hoje ele já é maior de idade e vive na criminalidade, como todos os seus irmãos biológicos que ele sequer conheceu. Uma catástrofe lamentável!

Infelizmente esse caso não é o único, conheço outras situações de adoção frustrada. E eu me pergunto: por que um ato tão sublime resultaria em experiências tão tristes? Posso citar pelo menos três razões. Primeiro, porque a responsabilidade do ato nem sempre é levada em conta. Muitas vezes falta ao casal pesar as conseqüências e se perguntar “realmente QUEREMOS adotar?”. Segundo, porque o preparo emocional e psicológico dos pais raramente faz parte do processo de adoção. Há que se considerar que haverá conflitos a serem geridos, especialmente se se tratar de uma criança já crescida e com uma vivência em ambiente problemático, isso requer maturidade e capacidade psicológica. Terceiro, porque a motivação para se adotar quase sempre é equivocada. O interesse em proporcionar um lar a uma criança está em quinto lugar na lista de motivações para a adoção. Em primeiro está a impossibilidade de se ter filhos naturais, ou seja, o que me motiva é a MINHA necessidade, prioritariamente. Muitos casais, se pudessem ter filhos, jamais adotariam um.

Ao contrário do que se possa imaginar, não sou contra a adoção, de forma alguma. Só quero deixar claro que nem todos estão prontos para ela, e romantizar pode ser um erro fatal. Eu vejo a adoção como um dom, uma capacidade toda especial de aceitar e lidar com o diferente. Apenas quem tem esse dom é capaz de ser feliz e realizado nessa empreitada. Filhos naturais terão o nosso sangue, os nossos genes, sairão a nós. Mas, e os adotivos? Por mais que se diga que importante é dar amor e educação, há uma herança genética que se manifestará todos os dias e trará à tona grandes diferenças, conflitos emocionais e pessoais e é aí que entra o dom de lidar com essas situações, amenizando-as e tornando-as um mero detalhe. Haverá a ausência de um referencial familiar a ser criado ou, pior, poderá haver um referencial destruído a ser reestruturado. Imagino não ser tarefa para qualquer um, apenas para pessoas muito especiais.

Costuma-se distinguir filhos naturais e adotivos como os da barriga e os do coração. Estes, além de filhos do coração deveriam ser chamados também de filhos da razão. Menos romântico, mas bem mais realístico.

***

Este post faz parte da Blogagem coletiva "Adoção, um ato de nobreza", proposta pela Geórgia e pelo Dácio.

25 comentários:

Sonia H. disse...

Oi, Célia,
Tua postagem é muito relevante sim. Há de se ter muita responsabilidade para se adotar. Mas diria mais, há de se ter responsabilidade SEMPRE para se colocar um filho no mundo, seja biológico ou do coração, ou da razão como você sugeriu. Os pais que adotam geralmente usam este termo 'do coração' para diferenciar o tipo de gestação, entende, que quase sempre dura mais de 9 anos, mas é claro, filhos do coração devem ser SEMPRE gerados com muita responsabilidade e desejo. Lamento o ocorrido com a tua irmã, e infelizmente acontecem outros casos. O menino foi rejeitado logo de começo e o resultado não poderia ter sido diferente.
Porém, não concordo quando você menciona o fator DNA desconhecido. Estas crianças realmente têm DNAs de outras pessoas, mas eu ainda acredito que o que ela recebe durante a sua vida em termos de educação, amor, cumplicidade, uma vida íntegra prevalecerão sempre. Vejo casos de fihos de mesmo DNA aprontando tanto, Célia.
Parabéns pela tua participação. É sempre bom ouvir os dois lados da história. Pois há muito para ser discutido sobre esta questão.
Beijos,

Celia disse...

Oi Celia. Fiquei triste com o que aconteceu a sua irma. Vc talvez tenha razao. Eles nao estavam preparados. Eu fui muito feliz com a minha. Veja no meu blog. Um beijo grande

Georgia disse...

Célia, é triste o caso da sua irma, e casos assim há muitos no mundo inteiro. mas também esse mesmo tipo de caso acontece com filhos biológicos. Porque o fato está na pessoa e nao na cor ou porque ele se é adotado. Está no adulto e na capacidade dele de amar.
O casamento da sua irma poderia até ter acabado, mas nao foi por causa deste fator. Ele já estava quebrando antes e os dois pensaram que adotando uma crianca ele poderiam voltar a se amar. O menino só foi uma desculpa.

Concordo com você que além da empolgacao do momento deve-se ter muita responsabilidade e consciência no passo que está querendo se dar. Mas responsabilidade tem-se que ter sempre. Tanto com filhos biológicos como com os adotivos. Como disse a Sonia.

Eu acho, que às vezes a pessoa tem outros problemas que nao foram resolvidos ao longo da sua vida. Seus medos e seus anseios e ai pensa que adotando uma crianca, estao fazendo uma caridade e quem sabe os seus medos se vao. Mero engano.

Célia, adorei o seu ponto de vista. Indagador e reflexivo. Dá para ver que vc é uma pessoa que pensa, analisa e reflete sobre cada passo que deseja dar. E se mais pessoas pensassem mais, talvez elas mesmas nao lhe fariam tanto mal, tanto mal a si própria e aos outros.

Um grande beijo e obrigada pela participacao.

luzdeluma disse...

Venho de uma familia com muitos casos de adoção bem sucedidos e mesmo assim é uma barra, já que a tudo, mesmo por parte dos adotados, existe uma carência natural por se sentirem rejeitados pelos pais naturais. Por isso o casal tem de estarem integros na ciencia dos motivos por que querem adotar. Beijus

Espaço Mensaleiro disse...

Celinha,

que bom vir aqui!

Sabe que sou sua fã.

Eliana

clabrazil disse...

Que lucidez a sua. Gostei demais, Célia. Filhos da razão é uma ótima descrição.

Beijos,
Clarisse

dácio jaegger disse...

Razão, termo difícil para ser entendido e praticado pelo povo em geral. Muito particular é próprio das pessoas realmente inteligentes, daquelas que frente a uma situação qualquer primeiro pensam para depois reagir. Quantos não passam a vida comportando-se como crianças, reagindo aos embates leves ou pesados com reações de envergaduras variadas. Por isso, os roubos, falcatruas e fraudes de todas as espécies medrando no meio humano e este meio reagindo criando toda sorte de castigos, aqui na base do finge que você manda que eu finjo que obedeço.
Filhos biológicos são um imperativo da natureza, eles acontecem entre todos os seres, desde os simples vírus e bactérias passando por mamíferos e outros superiores até chegar ao homem. Se todos começarem a pensar muito a extinção baterá às suas portas. Na natureza não é exemplar que animais adotem filhos e há casos comprovados de rejeição. Entre os homens, desde muito é um acontecimento. Menos complicado no passado porque menos, ultra complicado agora por que em demasia – a lei há que controlar tal disparate.
E o vem fazendo, mal para muitos, os adotantes. Bem, para os encarregados pelo governo para tal. Trágico para os mariscos entre o mar e o rochedo. Seu post é uma veracidade. Muito obrigado por esta contribuição fantástica para o brilhantismo da blogagem que por vocês amigas e amigos é um fato consumado.

Vilma disse...

Gostei muito de ler o teu texto.
Sem dúvida, que é algo que temos de ponderar e estar preparados para.
Na verdade, todo o filho precisa de ser adoptado, independentemente de ser biológico ou adoptado.
Eu acho que no meu coração, sempre estive mais preparada para adoptar que gerar, mesmo sem saber que não poderia ter filhos. Terá sido dom do Alto? Talvez, quem sabe!:)
Um beijinho.

Nina disse...

Ah que pena Célia, a experiência de sua irmã.... como vc mesma disse, nao é um caso isolado. mas sabe, eu sou daqueles que pensam que o problema nao está na crianca a ser adotada, mas nos pais que a adotam. a que se ter mesmo mt, mt amor, disposicao e doacao de si mesmo...

Grace Olsson disse...

Mas cÉLIA, A CRIANCA ESTAVA COM APENAS DOIS ANOS.ERA MUITO NOVINHO.Acho que o casal naoe stava preparado para adocao.
Eu levei tempo apra convencer o marido de que meu filho era a minha vida. Meu marido tem olhos azuis e toda a familia dele. E o congolês era negro. Meu marido ponderou esse lance da cor, mas eu disse que estava decidida a vencer os desafios e nao deixar o mundo mudar a vida do meu filho para pior...simplesmente por que ela era negro.
EU ESTAVA DECIDIDA , INCLUSIVE, ME SEPARAR POR CAUSA DELE.Mas o destinoq uis diferente. Hoje, estou na luta por Allan que é mesitco. E dos 8 que vivem na África, vc nem sabe como faco das tripas coracao para enviar dinheiro para ajudá-los.
A minha familia tem muita historia de adocao.Minha mae, irma, tias, etc.Todos adotarame deram certo.
EU NAO SUPORTO VER CRIANCA SOFRENDO.
Essa historia da crianca que sua irma adotou e terminou dessa forma é lamentável para esse rapaz. Ele tinha tudo para ter uam vida melhor.
Uma pena.
Bjs e dias felizes

Grace Olsson disse...

SabeCélia..o DNA conta nao, amiga. A vida tem me mostrado tantos casos de DNA ruim. Na minha familia mesmo...os adotados sempre foram mais solidários que os outros.
CONCORDO COM A SÔNIA NA OBSERVACAO QUE ELA FEZ SOBRE A GENÉTICA.
Nao há p+esquisa cientifica que prove que o DNA conte na hora de definir se uma pessoa será boa ou nao.
Sao tantos os fatoes que contam...Mas o mais importante é o familiar.
Essa adocao tinah tudo para dar errado. E o casal nao soube se posicionar na hora de bater firme e ter a crianca aceita pela familia.
Seu post é esclarecedor e mostra uma realidade que existe e nao se pode negar.bjs e dias felizes

Alice disse...

.. Oi Célia ,

eu tb não tive uma experiencia muito positiva com a adoção...


bjus pra vc

Adelino disse...

Celia, muito importante o seu depoimento.
Existe muito romantismo na adoção de crianças. Eu ousaria dizer que a maioria dos casais que adotam crianças estão expondo um pouquinho do egoísmo que vai em suas almas. Adotam pensando mais na solução de seus problemas pessoais do que nos da criança adotada.
O tema é extremamente complexo, sem dúvida. Aliás, muito bem escolhido pela Georgia e Dácio.
Um grande abraço. Mais uma vez parabéns pelo seu comentário/depoimento.
Feliz quinta-feira.

Yvonne disse...

Celia, obrigada pela visita e comentário. Querida, seu post disse tudo. Adotar é um ato de responsabilidade, como também é querer ter filhos naturais. É um festival de desistências de um monte de coisas e nem sempre o adulto está preparado para tal. Boa a sua abordagem. Beijocas

Sonia Regly disse...

Texto completo, bonito e informativo. Gostei muito!!!
Vim te pedir para linkar o nvo endereço do Compartilhando as Letras.Para meu ranking não aumentar lá no Blogsblogs:

http://evelyns-place.com/compartilhandoasletras/
Obrigada

Sonia Regly disse...

Novo endereço para linkar:

http://evelyns-place.com/compartilhandoasletras/

Fábio Mayer disse...

Muita gente diz que blogagem coletiva não tem importância, porque não gera efeitos práticos.

Eu discordo, especialmente com o que representa ESTA blogagem sobre a adoção.

Isso porque, o grande efeito desta blogagem é fazer com que uma pessoa que esteja pensando em adotar, tenha subsídios para decidir pelo sim ou pelo não, em razão do fato de que os muitos post sobre ela, mostram as várias faces da questão.

Como adoção é, como você mesma disse, ato de responsabilidade, a blogagem ajuda, e muito!

Andréia disse...

aqui na minha rua teve uma história muito triste que acabou péssima. uma familia (rica por sinal) n consegui ter filho e adotou um menino negro e o criou com muito amo e quando ele fez 8 ano a mãe dele conseguiu engravidar e depois teve mais 2 filhos e depois disso passaram a rejeitá-lo pq ele era negro e os filhos dela eram loiros o menino entrou em péssima compania, virou droga e traficante e ladrão inclusive encomendou um carro q agente tinha p bandido (+ Deus devolveu 6 meses depois) e por fim ele foi assassinado por outros bandidos.. as vezes lembro dele e me dá uma tristteza

vivendo disse...

Celinha,
que texto bem escrito. Concordo com vc, a adoção não pode ser uma empolgação de momento...deve ser um ato responsável e para sempre...beijo, Vivi e bebê

Anônimo disse...

Acho a adoção um ato ainda mais importante e difícil do que ter filhos naturais. É um ato de muita coragem. amor e desprendimento.

Passando para conhecer seu belo espaço e desejar um lindo domingo e paz.

Smack!

Edimar Suely
jesusminharocha.blig.ig.com.br

dácio jaegger disse...

Olá Célia, vamos rir um pouco com a história de Adãolá blog? Abraço

Raphael Rap disse...

Usar a razão para adoção é realmente um critério interessante, mas também infelizmente um tanto quanto subjetivo...

Como você disse não podemos em tal ato nunca agirmos por impulsão da caridade assim como não se pode agir unicamente por uma necessidade egoísta de ser ter um filho...

Ótimo texto...

Georgia Aegerter disse...

Oi, estou vindo aqui te avisar que os posts sobre a blogagem coletiva estao todos em um único blog para faciliatr que deseja lê-lo.

O seu também está lá.

Entao, dá uma passadinha por lá vê se está tudo bem prá você como tudo ficou por lá com o seu post.

Aqui o link do blog: http://blog-blogagem.blogspot.com/

Te desejo um ótimo final de semana.

Abracos do Dácio e da Georgia

tetê disse...

Oi Célia! Maravilhoso o seu post sobre adoção! A adoção é um ato de amor incondicional! Estou aqui para te avisar que o Prisma foi sorteado para destaque desta semana lá na Casa da Tetê. O selinho está a sua disposição! Bjks e uma boa semana.

Celia Rodrigues disse...

Amigos, é verdade, a responsabilidade deve ser um fator essencial não só no momento da adoção, mas sempre, no decorrer de toda criação, e também na decisão de se ter um filhos biológicos.
Eu creio sim que os genes façam diferença, afinal todos nós carregamos traços das nossas origens. O que pode ocorrer é que esses traços, quando impróprios, podem ser amenizados ou moldados através de uma criação digna, cheia de amor e orientação.
Creio que há muitas pessoas prontas a proporcionar um lar feliz a crianças abandonadas, mas também há aqueles que não estão preparados para isso e talvez nunca estejam.
Muito obrigada a todos por comentarem tão respeitosamente, alguns mesmo discordando de mim em certos pontos! Um grande abraço!