quinta-feira, 26 de maio de 2011

A vida é o que importa


“Morrer faz parte da vida”. Diz o senso comum em sua simplória filosofia. Faz algum sentido, se consideramos apenas a naturalidade das coisas. Mas, analisando o seu significado mais profundo, não vejo verdade nessa frase.

A verdade que vejo é no curso da existência, de que não fomos criados para a morte e, ainda que em algum momento a desejemos, a sua real proximidade nos faz mesmo é querer sobreviver a ela, seja como for.

Mas isso seria apenas um instinto?

Na verdade, o que pulsa dentro de nós é muito mais que apenas sangue e ondas cerebrais. O que move a vida é o ar dos pulmões do próprio Deus soprado em nossas narinas. Fomos criados pela Vida para a vida, isso explica nossa gana por viver. O divino e a morte se repelem, no entanto, coexistem paradoxalmente no ser humano, a benção e a maldição, numa constante queda de braço para ver quem leva a melhor. E em meio a essa competição acirrada, hora perdemos, hora ganhamos, mas vamos sobrevivendo.

O que mais perdemos da vida é o tempo. Acredito que vivemos, de fato, meia vida. A outra metade foi tempo desperdiçado. Perdemos oportunidades grandes e pequenas, aquelas que nos passam despercebidas e aquelas que poderiam transformar nossa existência. Perdemos a razão afetando nossa própria vida e a de outras pessoas. Perdemos o afeto, o nosso pelos outros e o deles pela gente. Isso tira o brilho da vida. A idade, ganhamos, mas perdemos o frescor da juventude. Ganhamos sabedoria, maturidade, mas também dor e desgaste. Perdemos amigos, amores, família. E pode chegar o tempo de perdermos até parte do que somos, do que temos de mais próprio. Então os nossos fragmentos tornam-se palpáveis...

Certas perdas, superamos, outras doem, machucam, levam consigo a alegria de viver. Mas, apesar delas, o fôlego divino permanece inteiro lá dentro. E então aprendemos: ainda que percamos pedaços de nós mesmos, viver é tudo o que realmente importa.

P.S. Dedico este texto ao meu pai.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Quem não tem cão, caça “com” gato

Esse ditado não tem uma história, exatamente, mas uma particularidade que vale à pena ser esclarecida. Por acaso alguém já viu um caçador com um gato “encoleirado” indo à caça? Acredito que ninguém tenha presenciado cena tão inusitada. Então essa frase não faz muito sentido, certo...?

Na verdade, o dito original é: “Quem não tem cão, caça COMO gato”, ou seja, sozinho. Explicando: o homem não possui habilidades naturais para, por si só, sair à caça, necessitando da ajuda dos cães que, por sua vez, precisam de motivações e estímulos para tal (receber uma gratificação ou conhecer o cheiro do objeto da caça, por exemplo). Ao contrário dessas espécies, o gato sabe se virar perfeitamente bem para caçar as sua presa e tem uma maneira toda especial de fazer isso, se esgueirando de forma astuta, quase imperceptível. Além de fazer o que é preciso de forma bem feita, não depende de ajuda alguma para isso. Segundo o ditado, o bichano serve de exemplo para quem não pode fazer algo de maneira convencional, ou para quem se nega a resolver uma situação por falta de ajuda.

Depois desse pequeno esclarecimento, quando alguém recitar esse ditado para você, entenda que a pessoa quer dizer: “Se vira, meu filho!”.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Elefante Branco

Sempre gostei de saber a história por trás de uma situação. Constantemente me pego questionando, curiosamente, sobre o que levou uma palavra a ser dita, um costume a ser praticado, um comportamento a ser adotado, uma cultura a ser convencionada. Sou assim, gosto de significados e adoro história.

Pensando nisso, resolvi compartilhar com os leitores do Prisma algumas curiosidades sobre práticas que adotamos e ditos populares que incorporamos em nosso vocabulário. Eles costumam ter origens tão interessantes, mas que a maioria de nós infelizmente desconhece. Relacionei várias dessas histórias que chegaram ao meu conhecimento de alguma maneira – nem sempre me lembro como – e vou publicar aqui.

Elefante Branco

Antigamente, no reino de Sião, onde hoje se localiza a Tailândia, era costume do rei agraciar alguns de seus cortesãos com um elefante branco, animal sagrado para aquela cultura.

Acontece que o “presentinho” do rei, que por um lado poderia significar favoritismo do monarca pelo cortesão que era presenteado, acabava por se tornar um terrível transtorno para o “agraciado”. Por ser um animal sagrado, o elefante não podia ser posto a trabalhar como os outros animais. Como presente real, não podia ser recusado nem vendido, e muito menos sacrificado. Restava ao infeliz proprietário, acomodá-lo, alimentá-lo e mimá-lo com todo luxo e honrarias devidos a uma divindade, sem obter nenhum resultado de todo esse custo e trabalho.

Desse fato surgiu o termo “Elefante Branco” para designar algo que se adquire e do qual não se pode livrar, e que não tem nenhuma serventia, senão gerar despesa e trabalho inutilmente! É um termo bastante usado para se referir a obras públicas sem utilidade.

Imagem: Daqui