sábado, 18 de junho de 2011

A confusão em mim

Imagem da fotógrafa Junia Alves, acervo 1000 Imagens

Ontem tive insônia. Não é comum, na verdade, gosto muito de dormir e durmo bem. Mas aconteceu algo no decorrer do dia que me deixou elétrica, um desejo há muito acalentado que ainda não realizei, mas ontem tornei-o possível para um futuro próximo. E cheia de euforia, fiquei até lá pelas duas da matina sem conseguir pregar os olhos.

Foi quando, rolando de um lado para o outro, lembrei do papai. Aquele velhinho franzino, branco-avermelhado, implicante como ele só e com grandes olhos de anil, agora já com ares de cansaço da idade. Afinal, ter 81 anos não é para qualquer um e, apesar de seus últimos passos dados com dificuldade, custo encontrar para ele um páreo de força e resistência. Tem carinho nestas palavras, mas nem sempre foi assim.

Um velho turrão, foi como sempre o percebi. Nossas atitudes tão avessas, nossas idéias tão opostas, nossos conceitos tão divergentes, e tudo isso tão intensificado ao logo dos anos, fez com que as diferenças se agigantassem e as semelhanças fossem quase que totalmente ocultadas. E foi na primeira sessão de uma curta temporada de psicoterapia que fiz há algum tempo que me vi chorar copiosamente ao relatar como era e no que se transformou meu relacionamento com papai.

Quando criança, eu o abraçava, conversávamos, ele me buscava na escola vez ou outra e, quando chegávamos eu tirava pequenas peles ressecadas pelo sol que se desprendiam de suas orelhas. Em troca ele me contava histórias, quase todas as que eu sei. Ah, as histórias que até hoje me cativam... Olha aí a semelhança?! Como tantas outras esquecidas dentro de um baú, trancado pelas chaves da amargura, da decepção e da indiferença, sentimentos alimentados e colecionados a partir da adolescência, quando eu não mais era uma menininha obediente e facilmente dominada. Não nos tornamos inimigos, claro, mas a docilidade daquele relacionamento deixou de existir. E eu nem me dava conta de como isso me faltava!

Nenhum desses malditos sentimentos fazem sentido quando descobrimos que o amor é muito maior do pensávamos que ele realmente fosse. Sabemos o tempo todo que ele está lá, mas tantos sentimentos avessos apagam sua real intensidade. E percebemos que, de fato, é amor, pois as diferenças  também continuam lá, mas já não têm a mesma importância. E tão naturalmente, como nunca fora antes desde a infância, eu me vi chegar ao lado de sua cama de hospital e afagar seus cabelos brancos, e segurar sua mão para que a dor não lhe parecesse tão insuportável.

Acho que nem Freud explica isso. Não sou mais a garotinha de suas teorias, apaixonada por seu pai herói,  seu contador de histórias. Sou uma mulher descobrindo que amar seu pai é possível, apesar do abismo entre nossos mundos, apesar de nós mesmos.

Não sei se deixarei que ele leia isso, acho que ele não compreenderia a confusão de sentimentos que há em mim. Mas talvez eu o deixe saber, na prática, apenas da parte que diz que ele é amado. Só isso basta.

P.S. A insônia? Depois de escrever isso voltei para a cama pela terceira vez e adormeci com os olhos ainda úmidos.