segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A deliciosa simplicidade da roça

Acaba de anoitecer e a janta está servida na mesa da varanda, aquela que, em vez de cadeiras, tem bancos compridos ao redor.

No cardápio, arroz branquinho e frango do próprio galinheiro, abatido pelas ágeis e habilidosas mãos da tia Maria. O feijão é da lavoura da família, colhido por eles, deixado secar no quintal e depois debulhado, grão por grão. E, por fim, a grande tigela de salada, tudo fresquinho tirado da horta há pouco.

A claridade meio tímida da lâmpada fraca recebe reforço do fogo que ainda queima no fogão à lenha logo ali do lado, e o seu calor, aconchegante à brisa da noite, quase chega a ser tão intenso quanto ao das conversas animadas, piadas engraçadíssimas e gargalhadas sem fim. E assim prossegue o jantar com tanta família junta, como nem sempre é possível ser.

Ao contrário da claridade avermelhada e aconchegante da varanda, o breu do entorno revela apenas os sons da noite que vem embalar o jantar numa educada orquestra que não atrapalha a conversa animada: ouve-se o coaxar dos sapos de alguma lagoa próxima, o perfeito o coral de grilos em todos os seus tons ritmos próprios e o miado do gato caramelo que circula ao redor da mesa implorando por alguma migalha. Ah, o gato... Quantos sustos eu levei com a sua calda roçando a minha perna sob a mesa...

Na roça o sono chega rápido. Todos logo se acomodam porque o dia começa muito cedo e, de repente a casinha inteira se apaga e a animada conversa dá lugar ao repouso absoluto...

E então, um sonoro co-co-ri-có serve de despertador, para mim pelo menos, pois os da casa já estão de pé há tempos. A final, há tanto para se fazer... Vacas aguardam impacientes no curral, em meio a insistentes mugidos, a ordenha iminente. Há um porco na engorda que espera para ser abatido. Espigas madurinhas no milharal esperam ser colhidas e transformadas numa deliciosa pamonha e a represa cheia de peixinhos fará a alegria dos visitantes numa animada pescaria. Melhor levantar logo, pois o canto do galo promete.

Ah, se a vida sempre acontecesse assim, simples como tudo devia ser...


Início de férias na roça da tia Maria, em Ecoporanga/ES