terça-feira, 29 de maio de 2012

Noite fria



Conforme o fim da tarde caía, a temperatura também despencava. Ela, envolvida em seu chale cor de mel, olhava para a grande porta envidraçada que separava a cozinha dos fundos do quintal, e via o céu cinzento e as folhas das árvores num balançar incômodo, à mercê do movimento da brisa fria que soprava do lado de fora. Como ela gostava desse clima! Não porque gostasse de sentir frio, mas porque esse tempo convidava ao cuidado. Era acolhedor, envolvente, significava carinho, proteção. Mas estava faltando uma coisinha para completar sua inspiração: Chopin! Ela escolheu um volume antigo e logo os acordes do pianista encheram o ambiente!

Pensando nessas sensações e sentimentos, logo ela se movimentou pela cozinha. Escolheu, da farta cesta de legumes, belas mandiocas, enxutas e branquinhas, compradas de um verdureiro do bairro que comercializava leguminosas e hortaliças de seu próprio sítio. Descascou-as, cortou-as e pôs tudo numa panela de ferro que tinha destino certo: o fogão à lenha na varanda dos fundos, que já tremeluzia em chamas avermelhadas. Pedaços de carne e embutidos diversos também foram para lá para dar forma e sabor ao delicioso cozido, assim como o tabuleiro de pães dormidos que, depois de aquecidos na bancada do fogão, se tornariam acompanhamentos crocantes.

Da horta que crescia logo mais adiante foram colhidos temperos que, cortados e macerados, enchiam a casa de um perfume sem igual e conferiam mais sabor à comida de mãe, cheia de carinho e receptividade. Logo a mesa de madeira com bancos ao redor, aquela que fazia par com o fogão à lenha, estava posta com a bela louçaria dos tempos da vovó - ainda que com uma trica aqui ou ali - sobre a toalha xadrez, tudo arrematado pelo antigo vaso ao centro, que ostentava um singelo arranjo de flores do quintal.

O marido, até então mero expectador da movimentação de seu posto no sofá, livro à mão, enfim se levantou ao som da campainha. E então filhos e netos, genros e noras invadiram a casa num misto delicioso de falatório e riso, sons de alegria! Sons de família!... Sons desordenados que acabavam de desbancar as harmoniosas notas de Chopin...

O frio da noite não incomodava a família ao redor da mesa na varanda. A sopa aquecia. O fogo do fogão ali do lado aquecia. A conversa regada ao gostoso vinho do porto aquecia. Os sorrisos e os toques das mãos aqueciam. E ela olhava satisfeita, olhos brilhantes, para cada um deles, feliz e até emocionada, envolvida em seu chale cor de mel como se sentisse o abraço de cada um através da trama do tricô. E celebrava em seu íntimo: nenhuma noite é fria demais quando o amor da família é acolhedor.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pela Égua, nesse friozinho...



Eis um prato delicioso que é figurinha fácil na minha cozinha nos dias mais frios do ano. Aliás, um dos motivos pelos quais me agrada tanto o tempo frio, é poder me deliciar com os caldos, cremes e as sopas que tanto gosto.

Outro dia me questionaram sobre o nome desse prato - que eu nem fazia ideia do significado - então fui em busca, não imaginando que história desagradável se encontra por trás dele. Dizem que, antigamente, tropeiros das Minas Gerais comiam esse prato bem quente e temperado e depois seguiam viagem em suas montarias. Acontece que o efeito da sopa quente e o movimento constante dos animais fazia com que os tropeiros soltassem flatulências quentes nas costas das éguas sobre as quais viajavam. Daí o nome característico do prato. No entanto, devo informar que jamais observei tais efeitos sempre que degustei essa delícia.

Mas deixando de lado o desagradável significado no nome, vamos à receitinha que é o que interessa (clic no link abaixo para continuar lendo).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Grávida já é mãe?



Acho que seria muita pretensão afirmar isso. Apesar de eu já estar experimentando sensações e sentimentos completamente estranhos para mim até há pouco, acho que ser mãe consiste numa trajetória de acontecimentos, muito mais do que simplesmente gestar ou parir. No entanto, penso que comecei a dar meus primeiros passos nessa jornada.

Desde que engravidei, já sonhei com meu bebê algumas vezes. Curioso isso, como pode ser sonhar com algo – ou alguém – que até ontem era uma mera e vaga possibilidade? Quem ele é? Ou seria ela? Que surpresas o meu ventre acolhe para se revelar na vida de uma pessoa? Ontem ele era uma possibilidade distante e, de repente ele está aqui, influenciando os costumes, promovendo decisões, povoando os pensamentos, ditando toda essa transformação no físico e na alma...

E então experimento a aflição de perceber que algo não vai bem com ele, ou os infindáveis momentos de insistente preocupação, renúncias e orações para que ele seja bem formado, saudável e lindo! Ah, o primeiro trimestre que não passa nunca... E ainda rio sozinha quando me perguntam se está tudo bem e eu respondo automaticamente que sim, ao lembrar que hoje senti enjoos, cólicas e aversão a algumas comidas. Tudo perfeitamente normal, hehe! O sentido de “estar tudo bem” nunca foi tão avesso e ao mesmo tempo, nunca me deixou tão contente!

Um feto de nove semanas e dois centímetros já é um filho? Bem, ele ainda não tem olhinhos pra me ver, mãozinhas pra te tocar, lábios pra me sorrir ou pezinhos pra me chutar e, antes mesmo que tivesse um cérebro pra me reconhecer, seu coraçãozinho já batia em sintonia com o meu... Era o início de um vinculo que não tem volta. É, acho que grávida já é um pouquinho mãe... Só um pouquinho, mas acho que é sim.