terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Viramos bonzinhos?



Engraçado! Eu, noveleira assumida que sou, nunca estive tão por fora dos roteiros novelísticos como atualmente. Mas não preciso estar assistindo a uma novela pra dizer o que quero dizer hoje, assunto sobre o qual tenho ouvido bastante em relação à atual novela das nove.
Não é novidade nem pra quem não assiste que essa novela trás um dos núcleos do elenco envolvido com uma igreja evangélica, e pelo que dizem, em cenas muito reais (até teologicamente falando) em relação ao que acontece nos cultos “de verdade”. Novidade pra mim é que algumas pessoas estejam tão encantadas com essa “transformação” da Rede Globo em relação à religião evangélica. Não faz muito tempo, essa postura era bem diferente.
Tenho ainda fresca a memória das figuras crentes caricatas que apareciam no ar, gente tresloucada, falando num evangeliquês pateticamente exagerado, muitas vezes beirando à uma vilania que tinha como principal motivo suas convicções de fé. Lembro da minissérie Decadência, que fazia alusão à Igreja Universal e era praticamente uma denúncia da postura exploradora da mesma. Lembro da Creuza, personagem de Juliana Paes em América, que na verdade era uma devassa disfarçada na imagem ridícula de uma crente brega e boba. Lembro também da Edvânia, personagem da atriz Suzana Ribeiro em Duas Caras, que mais parecia uma doente mental, perseguindo pessoas e cometendo crimes, do que um membro de uma igreja. Em fim, não estou dizendo que gente assim não existe, quero apenas frisar o que a mídia objetivava deixar em evidência sobre evangélicos até então.
De uns tempos pra cá a coisa mudou, começaram a noticiar as boas ações sociais das igrejas evangélicas, cantores gospel viraram figurinhas fáceis nos programas de entrevista e entretenimento, crentes de novela passaram a ser gente boa... Até criaram o Festival Promessas! Vejam só!
 
A verdade é que essa repentina simpatia global é fruto da infame conveniência que move o mundo. Um engodo apenas pra alimentar a mentalidade pós-moderna da inexistência de certo e errado, da “verdade” individual e inabalável, da relativização de valores. Além, é claro, de o evangelho ter virado um produto muito lucrativo do qual todo mundo quer levar uma fatia. Ou você realmente acha que a música gospel de repente passou a um nível tão elevado de qualidade a ponto de ganhar credibilidade pra ser exibida num festival da maior TV do país? Se até funk e sertanejo universitário têm o seu lugar... 
 
Lamentável, eu sei, mas apesar disso tudo, vale lembrar que Deus escreve certo por linhas tortas. Ele é capaz de se fazer valer, independente das intenções humanas.

Um comentário:

Lúcia Soares disse...

Entendo seu pensamento, Célia. E sua frase final foi fecho de ouro para o assunto.
Acho a Globo detestável, manipuladora, vai nadando para onde der, não rema contra a maré.
Beijo!