quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Família!



Desde a adolescência eu aprendi a torcer o nariz para as atribuições domésticas de uma mulher. Na minha casa isso era muito incentivado, mas não era ensinado como algo bom. Na verdade era passado como obrigação penosa. E ainda, na minha geração cresceu significativamente a visão da mulher moderna, que trabalha, que administra, que dá ordens, que se desenvolve intelectualmente, cujo perfil não encontra espaço pra tarefas tão insignificantes como cuidar de uma casa. Essa era eu! 
Por muitos anos eu pensei que não me casaria. E se me casasse, as coisas seriam “do meu jeito”. “Porque mulher que limpa chão é capacho de homem!”. Por muitos anos eu pensei que não teria filhos. “Porque eu não tenho paciência com criança, e não teria tempo de me dedicar a uma como se deve”.
Mas aí eu casei. E o amor aguçou naturalmente meu instinto de cuidado. Logo eu descobri que cozinhar não era algo tão ruim assim, e quando meu primeiro strogonoff de frango deu certo, foi o primeiro passo pra um caminho sem volta: eu me apaixonei pela cozinha!
E aí eu percebi que fazer da minha casa um lugar agradável, bonito, perfumado, poderia ser um prazer, especialmente quando isso era feito a quatro mãos. Eu não era capacho de ninguém, eu era auxiliadora de um homem que jamais faria eu me sentir menos importante do que sou, esteja eu fazendo o que for.
E aí eu tive nosso filhote. E ao preparar sua chegada, eu me vi a mais mulherzinha dentre todas as minhas amigas, decorando quarto, costurando enxoval – sim, eu costurei todo enxoval de berço do Felipe! – confeccionando lembrança de maternidade, organizando chá de bebê... E depois da sua chegada, lavando roupinhas à mão, preparando a “melhor papinha do mundo”, querendo deixar o trabalho pra ficar só com ele...
Ah, quanta mudança! À beira dos quarenta, é possível olhar para trás e ver tão claramente o quanto é bom amadurecer, deixar os fardos pelo caminho, permitir-se rever as convicções.
Meus amores, minha família, obrigada por me ensinar de forma tão natural, que cuidar de vocês, de todas as maneiras que posso, é a minha missão mais importante. Obrigada por me mostrar que os talentos, as habilidades, os dons com os quais o Senhor me presenteou são pra fazer vocês mais felizes.
Acho que virei o avesso de mim.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Descobertas da maternidade



É até engraçado como a vida frustra algumas expectativas da gente de forma tão positiva, se é que essa colocação é possível, rs. A maternidade nunca me encantou, quem me conhece de perto sabe disso. E ainda, sempre achei que eu não iria gostar de estar grávida. Sou assumidamente chatinha pra certas coisas, meio fresca com procedimentos médicos e tinha certeza de que me sentiria horrorosa grávida. Imagina uma pessoa de um metro e meio com uma barriga enorme. De cara, não parece muito interessante, rsrs. Mas incrivelmente e maravilhosamente eu me enganei.
Outro dia estava conversando com o Nilton enquanto voltávamos do trabalho, falando sobre o Lipe, lembrando alguns episódios, e eu disse a ele que, impressionantemente, o período da minha gravidez foi um dos mais bonitos e felizes que eu tive na vida. Fiquei encantada com a minha barriga desde que ela começou a despontar. Eu era a mulher mais bonita, mais radiante, mais forte, mais capaz, mais alegre, mais plena do mundo enquanto gerava vida dentro de mim. Um sentimento que tive de forma muito clara é que eu estava realizando um papel exclusivamente meu, me tornando o que eu nasci especificamente pra ser: mãe.
Pode parecer um discurso mega antiquado num tempo em que muitas mulheres colocam a maternidade em último plano, quando não a descartam, afirmando que esse não é (mais) o objetivo principal de ser mulher. Também foi o meu pensamento por muito tempo. Mas o que eu acabei de afirmar vai muito além de um discurso. É algo que eu vivenciei no meu íntimo e só então consegui descrever.
O banalizado termo “o milagre da vida”, é, de fato, um milagre. É a coisa mais natural do mundo, desde que o mundo é mundo, e ainda assim, é um milagre. Um milagre que gesta duas vidas simultaneamente: a de um filho e a de uma mãe. Um milagre capaz de marejar meus olhos e agradecer a Deus por ter me privilegiado com este dom, com esta capacidade, e me permitido viver esta experiência a despeito da minha falta de entusiasmo de outros tempos.
Aí o Lipe nasceu e a história começou a mudar um pouquinho, hehehe! Mas isso é conversa pra outro post. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

Eu olho para a cruz...



Outro dia vi o trailer de um filme de enredo cristão que está para ser lançado em setembro, “Você Acredita?”, e isso me remeteu a um tempo, não muito distante, em que a cruz passou a exercer um grande fascínio sobre mim. Isso aconteceu depois que li o livro “A assinatura de Jesus”, de Brennan Manning, evangelista católico, um ex-padre americano.

Não que antes eu não compreendesse a história da salvação, mas a partir daquela experiência, eu enxerguei no Cristo crucificado toda a razão de ser da minha vida. Tudo está centrado ali. Tudo parte dali. Daquele momento em que “ele me viu como fruto do seu trabalho (sacrificial), e se alegrou” (Isaías 53). Ele me viu... dali, da cruz... Isto é perturbador e constrangedor. Porque sempre que perco a visão daquela cena – e muitas vezes eu a perco, apesar de tão especial para mim – eu automaticamente me oponho a ela, e deixo de experimentar da alegria dEle, quando me viu como fruto da sua expiação.


Eu preciso voltar a enxergar pelo prisma da cruz. A partir dela, tudo é satisfatoriamente e plenamente administrável. O ganho, a perda, a dor, a frustração, a abundância, a escassez, a aceitação, o perdão... Porque ela está no alto da montanha, no topo de todas essas coisas, nos “lugares altos” onde somente Ele, tendo passado por ela, é capaz de me levar.


terça-feira, 7 de julho de 2015

"Precisamos de mais heróis"



Na semana passada surgiu um bafafá nas redes sociais a respeito de uma crônica do Zeca Camargo sobre o sertanejo Cristiano Araújo. Eu, como a maioria das pessoas, não conhecia o cantor, não gosto de música sertaneja – e isso não é preconceito, é expressão de preferência - e também não fiquei indignada com o posicionamento do Zeca no que se refere ao rapaz morto. Só peguei o gancho dessa história pra ressaltar uma frase da crônica dele que me chamou à atenção: “precisamos de mais heróis”, e fez menção a Cazuza, dentre outras imagens de referência da MPB.

Minha pergunta: o que é um herói? Segundo o dicionário, pessoa de grande coragem, autora de grandes feitos, que tem atributos muito positivos, digno de admiração, e por aí vai. Mas, impressionantemente, o mesmo dicionário já trás um sinônimo pejorativo com a classificação [Depreciativo], que indica alguém que se destaca pelo seu proceder incorreto ou escandaloso. Fiquei pensando, “bem a cara do nosso tempo, dos nossos ‘valores’...”.

Não vou negar que grandes artistas de outrora deixaram um legado cultural fantástico, eu mesma admiro a música de vários deles, mas isso, por si só, basta para serem considerados heróis? Ah, já ia me esquecendo do mais recente significado da palavra, então, acho que sim, né. Toda essa contradição me levou a assistir novamente ao Filme O Tempo Não Para.

Quem foi Cazuza? Um grande compositor de canções cheias de atitudes e protestos, de poesia bem escrita sem obviedade, cantor cuja interpretação e timbre vocal eram muito singulares, um livre pensador. Um sujeito que assumia suas posturas doesse a quem doesse. Foi, de fato, um grande artista! E segundo o amigo de infância Pedro Bial, um garoto de inteligência fora da média. Até aqui, mesmo eu ficaria encantada pelo rapaz.

Mas qual era a matéria prima que moldava essa pessoal tão especial e autêntica? Ele era um típico menino rico, mimado, inconsequente, desrespeitoso com a família, sem senso de autoridade, sanguessuga de pai rico e desocupado. Aliás, uma correção, ocupadíssimo em alimentar seu próprio prazer, sem limite. Boêmio, promíscuo, viciado em álcool, cigarro e drogas pesadas. Nada disso é novidade, basta assistir ao seu filme ou a algumas entrevistas dele. “Quando eu ficar velhinho e morrer, ninguém vai se lembrar disso, só vai ficar a minha música”, disse ele uma vez a respeito de sua bissexualidade, entre outros comportamentos escandalosos para a época. Será? Talvez ele não tivesse uma consciência tão clara de que sua música descrevia a ele próprio. Em uma entrevista para um documentário, Jorge Frejat, seu grande amigo e parceiro musical, disse que Cazuza retratou uma geração com o seu estilo de vida e com a sua música, que fazia jus à “sua verdade”. Ou seja, muito além da música pura e simples, ele influenciou uma geração com a maravilhosa proposta do que ele achava que contribuía "Pro dia nascer Feliz".

Cazuza, ao contrário do que afirmou um dia, não morreu velhinho, encontrou-se com a AIDS no meio do caminho, e se foi aos 32 anos. Suas últimas canções são a denúncia de um poeta angustiado cheio de convicções e “ideologias pra viver” roubadas de si por si mesmo, porque não importa o que eu faça, “O tempo não para”. Na verdade, pra quem vê seus dias contados, o tempo não apenas não para, ele galopa. Esse foi o herói Cazuza, que nos ensinou que a “vida louca é breve”. Será que precisamos mesmo de outros “heróis” assim?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Não há esperança


É verdade, eu tenho olhado o mundo com o olhar dos que não têm esperança. Não consigo enxergar luz alguma no fim do túnel. Apenas ouço, na escuridão dele, a confusão de vozes que hora murmuram, hora vociferam suas opiniões, convicções, reclamações, súplicas. Uma confusão não ouvida e não atendida. Apenas escutada e ignorada.

E a última discussão em pauta é: diminui-se ou não a maioridade penal? Tantos são os argumentos para o sim e para o não...

O meu conceito de punição é que ela, acima de tudo, exerça um papel educativo. Sou completamente favorável a dar umas palmadas no meu filho, ou privá-lo de um brinquedo, ou da liberdade de ir e vir (castigo) por um período, depois de ter dado a ele a chance e as condições de não cometer aquele erro. Isso é educar. Diferente de eu deixa-lo sem comida o dia todo e, à noite, dar-lhe uma surra ao descobrir que ele surrupiou um pedaço de carne na casa do vizinho.

Até ontem eu era totalmente favorável à redução da maioridade penal. Hoje, admito, já não sei. Não ouso dizer que sou uma pessoa justa, não mesmo, mas sempre tentei exercitar um pensamento de justiça. Logo, faz parte desse raciocínio o princípio da responsabilidade. Esse é um traço de caráter que vem sendo apagado da formação das nossas crianças dia após dia. Eu acredito piamente que quando deixo de punir meu filho por algo errado que ele tenha feito, eu deixo de ensiná-lo sobre responsabilidade. Ele precisa saber que tudo que fizer na vida terá uma consequência. Mas ele também precisa ser ensinado a querer o bem, ser conduzido a não querer seguir o caminho do erro. Para isso, eu, que sou sua tutora e desejo o seu bem, vou orienta-lo nas suas decisões e escolhas até que ele possa fazê-las por si só, e se responsabilizar por elas.

Não é isso que o Estado deveria fazer com seus filhos? Cuidar, educar, proteger e corrigir? Dar condições decentes para uma vida correta a fim de que o errado não seja tão atraente a ponto de engoli-la? E tratar com severidade sim, os erros conscientes e sem uma motivação que lhes justifique, pautado na tranquilidade de sempre ter proposto alternativas melhores?

“Só que não”. Isso lhe custa muito caro. Custa uma parcela grande demais do que a máquina pública coloca em seu próprio bolso. Custa clarear os becos onde as bocas ajudam a movimentar as engrenagens dessa máquina.

Ontem me bastava que o indivíduo fosse preso, com 12 ou com 18, mas que fosse. Hoje entendo que isso não fará diferença, e dependerá de alguma conveniência. Ontem eu considerava apenas a punição, hoje considero também a condição, e entendo que é interesse do Estado mantê-la como está, pois isso lhe é extremamente conveniente.


Não há esperança.