terça-feira, 7 de julho de 2015

"Precisamos de mais heróis"



Na semana passada surgiu um bafafá nas redes sociais a respeito de uma crônica do Zeca Camargo sobre o sertanejo Cristiano Araújo. Eu, como a maioria das pessoas, não conhecia o cantor, não gosto de música sertaneja – e isso não é preconceito, é expressão de preferência - e também não fiquei indignada com o posicionamento do Zeca no que se refere ao rapaz morto. Só peguei o gancho dessa história pra ressaltar uma frase da crônica dele que me chamou à atenção: “precisamos de mais heróis”, e fez menção a Cazuza, dentre outras imagens de referência da MPB.

Minha pergunta: o que é um herói? Segundo o dicionário, pessoa de grande coragem, autora de grandes feitos, que tem atributos muito positivos, digno de admiração, e por aí vai. Mas, impressionantemente, o mesmo dicionário já trás um sinônimo pejorativo com a classificação [Depreciativo], que indica alguém que se destaca pelo seu proceder incorreto ou escandaloso. Fiquei pensando, “bem a cara do nosso tempo, dos nossos ‘valores’...”.

Não vou negar que grandes artistas de outrora deixaram um legado cultural fantástico, eu mesma admiro a música de vários deles, mas isso, por si só, basta para serem considerados heróis? Ah, já ia me esquecendo do mais recente significado da palavra, então, acho que sim, né. Toda essa contradição me levou a assistir novamente ao Filme O Tempo Não Para.

Quem foi Cazuza? Um grande compositor de canções cheias de atitudes e protestos, de poesia bem escrita sem obviedade, cantor cuja interpretação e timbre vocal eram muito singulares, um livre pensador. Um sujeito que assumia suas posturas doesse a quem doesse. Foi, de fato, um grande artista! E segundo o amigo de infância Pedro Bial, um garoto de inteligência fora da média. Até aqui, mesmo eu ficaria encantada pelo rapaz.

Mas qual era a matéria prima que moldava essa pessoal tão especial e autêntica? Ele era um típico menino rico, mimado, inconsequente, desrespeitoso com a família, sem senso de autoridade, sanguessuga de pai rico e desocupado. Aliás, uma correção, ocupadíssimo em alimentar seu próprio prazer, sem limite. Boêmio, promíscuo, viciado em álcool, cigarro e drogas pesadas. Nada disso é novidade, basta assistir ao seu filme ou a algumas entrevistas dele. “Quando eu ficar velhinho e morrer, ninguém vai se lembrar disso, só vai ficar a minha música”, disse ele uma vez a respeito de sua bissexualidade, entre outros comportamentos escandalosos para a época. Será? Talvez ele não tivesse uma consciência tão clara de que sua música descrevia a ele próprio. Em uma entrevista para um documentário, Jorge Frejat, seu grande amigo e parceiro musical, disse que Cazuza retratou uma geração com o seu estilo de vida e com a sua música, que fazia jus à “sua verdade”. Ou seja, muito além da música pura e simples, ele influenciou uma geração com a maravilhosa proposta do que ele achava que contribuía "Pro dia nascer Feliz".

Cazuza, ao contrário do que afirmou um dia, não morreu velhinho, encontrou-se com a AIDS no meio do caminho, e se foi aos 32 anos. Suas últimas canções são a denúncia de um poeta angustiado cheio de convicções e “ideologias pra viver” roubadas de si por si mesmo, porque não importa o que eu faça, “O tempo não para”. Na verdade, pra quem vê seus dias contados, o tempo não apenas não para, ele galopa. Esse foi o herói Cazuza, que nos ensinou que a “vida louca é breve”. Será que precisamos mesmo de outros “heróis” assim?

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