quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O que será das nossas crianças?



Quando Felipe nasceu eu fui inflamada por aquele desejo de ser tudo para ele. Eu queria ajudá-lo em tudo na vida, ensinar-lhe todas as coisas e ser a primeira a compartilhar das experiências e do desenvolvimento dele. Arroubos de mãe. Então, mesmo que inconscientemente em alguns aspectos, comecei minha missão. Todas as vezes que ia dar banho nele eu pronunciava a palavra água. Sempre de forma serena, sonora e devagar. Quando ele ainda era muito neném e não abria os olhos, eu pronunciava a palavra enquanto mergulhava o corpinho dele na banheira, e derramava porções de água sobre sua barriguinha, seus bracinhos. Ele ouvia e sentia.

Quando ele ficou maiorzinho eu enchia as mãos e soltava a água mostrando pra ele, enquanto dizia: água... Ele ouvia e via. Quando cresceu mais eu fazia movimentos com a perninhas dele e batia com as mãozinhas provocando barulho na água, e também dava de beber enquanto pronunciava sempre de forma significativa. Ele ouvia e experimentava.

Por volta dos oito meses, eu estava com ele no colo enquanto fui ao filtro pegar um copo d’água para mim e, de repente ele disse: águ. Fiz ele repetir pra eu acreditar e ele disse de novo: águ. Imagina o tamanho da emoção!

Foi a primeira palavra que ele falou. A primeira que ensinei. E passei muito tempo pesando em quão mágica foi essa experiência, até que comecei a ler sobre processos de aprendizagem, sobre inteligência emocional e neurociência.

Sem colocar as ideias em termos técnicos, até porque não domino esse assunto, quase tudo na vida é aprendido, e aprendizado, a grosso modo, nada mais é do que ondas cerebrais processadas quimicamente através de neurônios e células, e todo esse processo provocado por estímulos externos.

Minha experiência com o Felipe não teve nada de extraordinário, exceto para uma mãe deslumbrada com a própria cria, hehehe! Mas o tempo todo tudo estava dentro da maior naturalidade do mundo. Felipe recebeu um estímulo repetidamente e isso desencadeou todo o processo neural que descrevi acima.

Pois bem, toda essa história é para chegar à famigerada ideologia de gênero e às questões de sexualidade relacionadas à criança que temos vivenciado. Na última semana fomos bombardeados por toda sorte de opiniões sobre esses assuntos, seja pela exposição do MAM, seja pelo bafafá da novela. Todo mundo tem tanto a dizer que é difícil debater esses temas. Mas questões importantes como essas têm que ser debatidas.

Ouvi de um especialista, na TV, que crianças de qualquer sexo entre dois a quatro anos já podem decidir se são meninos ou meninas. Considerando o pouco que sei dentro do universo que é o estudo do desenvolvimento humano, eu só tenho que lamentar profundamente a afirmação dessa pessoa.

Vamos considerar – e não sejamos ingênuos ou condescendentes – que há uma intensa campanha midiática para disseminação dessa ideia. O governo está engajado, educadores estão engajados. Querem a qualquer custo conscientizar toda a população de que podemos ser o que quisermos. Interessante que isso contradiz outra afirmação da mesma campanha de que o indivíduo nasce dessa ou daquela forma, ou de alguma outra entre as duas. Logo, eu não posso, de fato, ser o que eu quiser, estou impedido pela natureza já que nasci assim. Confuso, não? Ou será que são duas vertentes da mesma ideologia? Enfim.
Pois bem, partindo do ponto que pessoas nascem como nascem e aprendem a ser outra coisa, eu me pergunto: que estímulos nossas crianças estão recebendo que as levam a aprender, tão cedo, determinados comportamentos ou conceitos, que depois são confundidos – ou intencionalmente levados – a serem estabelecidos como uma condição natural daquela pessoa?

Qualquer especialista em funcionamento cerebral e desenvolvimento da mente pode afirmar que não há maturidade fisiológica nesse aspecto para que crianças e adolescentes saibam ou decidam nada que tenha tamanha relevância para sua vida. É para se pensar e questionar por que essas pessoas se rebelam contra o próprio conhecimento para alimentar uma ideologia tão danosa.

Quando olho para esse cenário fico alarmada e temerosa em relação ao futuro. Vivemos um momento em que não existem parâmetros para nada. A era da informação passou, estamos saturados dela, chegou a era do conceito. Saber não é mais o que importa, o que vale é o que fazemos com o que sabemos e é aí que mora o perigo. Transformamos a informação conforme a nossa conveniência. Essa é a concepção de conceito dos nossos dias. Dar significado ao que sabemos, mas um significado totalmente individual. Daí a relatividade e a subjetividade das coisas e as muitas “verdades” que cada um defende como sua.

Estamos andando em caminhos muito novos e nebulosos. Nesse mundo onde rompemos as fronteiras do certo e errado, da responsabilidade, das crenças espirituais e do pensamento concreto, avançamos em bando por estradas que não sabemos aonde vai dar.

A infância é preciosa demais para ser manipulada de forma tão leviana. É claro que nenhuma criança é assexuada. Todo ser humano nasce com sua essência sexual em potencial, que florescerá a cada fase da vida conforme a natureza determinou. O grande problema é que esse florescer perde o equilíbrio quando as influências e os estímulos acontecem de forma atropelada e equivocada. Isso nos leva de volta à questão principal deste texto.

Assim como Felipe aprendeu o que é a água, ele aprendeu quem ele é. Quando dissemos que ele é o Felipe e mostramos o que significa isso a partir das experiências do dia a dia, ele aprendeu qual é a sua identidade. Não quero dizer que ele está livre de qualquer influência contrária. Digo apenas que estamos no início da nossa jornada como pais, e ensinamos o que acreditamos. Por isso eu te chamo à reflexão. Não exponha seu filho a estímulos duvidosos. Não se deixe levar pelos modismos e pela retórica enganosa dos nossos dias. Busque a sabedoria e não meramente a informação e, sobretudo, não trate a vida na base da relatividade e a partir do que lê nas redes sociais. Quem enxerga as coisas dessa forma vê assim porque vive na superfície de tudo.

Em tempo, não me oponho a nenhuma forma de vida que alguém queira levar segundo suas convicções e motivações. Respeito e convivo com essa realidade sem o menor problema e sequer sou contrária à busca de direitos legítimos nesse quesito. Apesar disso tenho minha própria consciência a respeito de tudo isso. Mas defendo que conceitos desse nosso tempo insano e incerto não podem ser levados às últimas consequências quando tratamos de quem não pode ser diretamente responsabilizado. Seja o que quiser sim, desde que você responda por si.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

De quem é o problema?



Outro dia ouvi uma mãe dizendo que a filha adolescente não ajuda em absolutamente nada nos afares domésticos e que ainda deixa tudo jogado por aí. Somente se for por alguma retribuição financeira ou presente ela colabora.

Quando a mãe terminou a frase, três palavras ficaram piscando na minha cabeça como que em luzes fosforescentes: ajuda, retribuição e colabora.

Essas palavras simplesmente não se adequam à realidade familiar. Ajudar é uma atitude que beneficia o outro naquilo que é uma obrigação dele, não minha. Retribuição transmite imediatamente a ideia de troca. E contribuir nos remete ao mesmo significado de ajudar, porém, agrega um componente de voluntariado. No entanto, se está condicionado à uma retribuição então está totalmente fora de contexto na fala dessa mãe.

Mas a grande questão aqui é que o problema das pessoas é muito maior do que aprender o significado das palavras e suas colocações corretas dentro de um contexto. O problema, de fato, é desconhecer o significado das relações familiares e onde cada um se encaixa dentro desse sistema.

Receio que a nossa geração tem se tornado os piores pais de todos os tempos. Ao mesmo tempo que saímos (felizmente) do extremo do autoritarismo generalizado, caímos no extremo da complacência exacerbada. Nunca tivemos tanto medo de desagradar nossos filhos, e a psicologia infantil muitas vezes nos ajuda a reforçar essa ideia – ainda que não intencionalmente – ensinando como padrão métodos de agregar diversão a todas as tarefas que propomos para eles. Então como vão aprender que as tarefas que não geram algum tipo de prazer também devem ser executadas?

Tarefas domésticas não são a coisa que eu mais gosto de fazer no mundo. Na verdade elas estão no finalzinho (lá no rodapé mesmo, depois que acabou a pauta da folha, rsrs) da minha lista de preferências pessoais. Mas estão no topo da lista de necessidades da minha família. Percebeu? Necessidades da família. Casa limpa é uma necessidade da família. Roupa lavada, passada e organizada de forma a ser encontrada com facilidade no dia a dia é uma necessidade da família. Comida bem feita (perceba, não é comida sofisticada) é uma necessidade da família. Pia limpa e seca é uma necessidade da família. Banheiro sem mal cheiro é uma necessidade da família. Carro lavado é uma necessidade da família. Quintal livre de acúmulos e lixo é uma necessidade da família.

Daí eu te pergunto: filhos não fazem parte da família? Essa lista toda não é uma necessidade deles também? Por que a mãe que passou o dia fora, trabalhando, tem que se desdobrar na limpeza da casa enquanto a princesinha está no whatsApp com as amigas? Por que o pai tem que passar o sábado cuidando do quintal, limpando a caixa d’agua e lavando o carro enquanto o príncipe joga no computador? Por que uma mãe e um pai cansados não podem contar com uma sopinha feita pelo filho no fim do dia? Por que muitas vezes chamamos parentes e amigos para o mutirão da pintura do muro e os filhos ficam de fora dessa roda?

Sabe por quê? Porque nós, pais e mães, não compreendemos ainda que nosso filhos têm responsabilidades no funcionamento da vida familiar. Porque na nossa visão distorcida de que o trabalho é algum tipo de maldição e sofrimento, queremos poupar nossa prole disso. Porque ter uma funcionária doméstica significa erroneamente que nosso pimpolhos (e nós mesmos!) não precisam sequer aprender a desvirar a meia do avesso. Porque eles ocupam posições hierárquicas na família que não são a deles (e a de ninguém, pelo amor de Deus!). Porque queremos ter os filhos, mas não queremos ter o trabalho de educá-los para a vida desde cedo.

Acho meio tarde pra essa mãe querer que a filha adolescente “contribua” se quando ela ainda era criança não foi ensinada a guardar os próprios brinquedos, a levar a própria roupa suja pro cesto, a jogar o lixo na lixeira, a guardar a mochila e o tênis ao chegar da escola, a colocar o prato e o copo sujos na pia quando ela ainda não tinha tamanho pra lavá-los. E, Principalmente, a entender que essas ações eram obrigação dela, não um favor pra mamãe. Isso se chama criar consciência.


Precisamos acordar como pais e entender que os únicos prejudicados com a ausência de educação – em todos os aspectos da vida – serão nossos filhos. E precisamos, antes deles, criar nossa própria consciência de que faz parte da vida prender a se virar e não achar que isso é uma injustiça.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mãe às avessas



Ser mãe seguramente foi a coisa mais inusitada que já fiz na vida. Vivo essa experiência há quatro anos, cinco se eu incluir o período da gravidez, e a cada dia que passa, mais incertos são os meus passos nessa jornada.

Não é novidade pra ninguém que a maternidade nunca me encantou. Tive muitos sobrinhos desde muito cedo, então a convivência com crianças nunca foi uma novidade para mim. Tive um sobrinho em particular que era uma criança especial, de quem eu ajudei a cuidar durante vários anos da minha adolescência, e, a despeito de todo amor que eu sentia por ele, sua história foi uma grande desmotivação para mim em relação a filhos. Soma-se a isso a minha personalidade impaciente e acho que a minha própria natureza alheia à infância. Ou seja, eu não tenho perfil maternal.

Não foi fácil amadurecer a ideia de ter um filho, mas foi muito natural. O fato de não temos família fazendo pressão ajudou bastante. Outro fator importante foi o tempo. Nada como a maturidade para colocar nossas ideias no lugar, saber quem fomos, quem nos tornamos e o que ainda queremos ser. E foi assim, de forma completamente racional depois de dez anos de casamento que decidimos, eu e Nilton, que não arriscaríamos não formar uma família. Achamos que teríamos mais a perder num futuro sem um filho do que no presente com um. E assim resolvemos que era o momento, afinal meu prazo de validade estava pra vencer já que os trinta e cinco tinham chegado. Não houve apelação de instinto maternal, não houve aquela sensação de necessidade que dizem acontecer em algum momento do casamento, nada emocional envolvido. Apenas decidimos.

Acho que ainda é muito cedo pra dizer que foi a melhor decisão que tomei na vida e, acreditem, eu sei que é chocante para a maioria das pessoas ouvir isso de uma mãe. Afinal vivemos num mundo onde a ideia da maternidade é tão povoada de magia e encantamento que destoar disso nos torna pessoas horrendas. A verdade é que eu vivo (hoje menos intensamente) muitos conflitos interiores desde que o Felipe nasceu. Viver entre o amor descomunal que conheci ao tê-lo e a negação de mim mesma todos os dias desde então é algo com o qual não consigo lidar muitas vezes. Acho que essa aflição é muito própria do nosso tempo. Somos uma geração em uma transição histórica de valores, comportamentos, ideias, em que ser mãe se tornou apenas mais uma de nossas atribuições em pé de igualdade com tantas outras, por vezes até mais importantes. Ideologicamente não nascemos mais exclusivamente para ser mãe. Nascemos para ser o que quisermos.

Em contrapartida, é emocionante lembrar do meu estado de espírito durante a gravidez. Era incrível como eu me sentia plena em todos os aspectos enquanto gerava vida dentro de mim. Eu me sentia tão bonita que isso contagiava as pessoas ao meu redor. Elas me elogiavam! Eu estava tão segura, tão capaz, tão suficiente! E uma certeza absolutamente nova e que me espanta até hoje me invadiu naqueles dias: eu estou sendo o que eu nasci para ser. Não era uma ideia, a conclusão de uma análise, nada racionalizado. Era uma certeza sentida, vivida.

Acho que essa certeza é a grande responsável pelos meus conflitos. Porque cumprir o propósito da minha existência se estendeu para além daquela fase encantadora da gestação, e passou a coexistir com a anulação das minhas próprias vontades. A certeza virou dúvida e se reduziu a Insistir em achar, pelas experiências do cotidiano, que eu “não tenho perfil”, quando a experiência de gerar um filho me contou tão secretamente que eu existo para isso. Eu que sempre quis existir para tantas outras coisas...

A maternidade tem descortinado um mundo totalmente novo à minha frente. Novo e por vezes assustador. Um mundo de liberdade dosada, de abrir mão, de depender de outros, de descobrir que tenho habilidades e possibilidades incríveis, ao mesmo tempo que ressaltam diante de mim os meus piores defeitos, muitos dos quais me angustia não conseguir me livrar deles nem pelo meu filho. Felipe revelou o melhor e o pior de mim. E ele vai ter que conviver com isso. E isso o influenciará diretamente. E eu tremo só em pensar nessas coisas.

O que eu nasci pra ser é muito maior do que quem eu fui até cinco anos atrás. Ser alguém para si mesmo é cômodo, prazeroso, compreensível. Ser alguém para o outro é desafiador e completamente imprevisível.

Acredito que um dia olharei para o Felipe com um olhar mais seguro sobre quem eu nasci pra ser. Hoje me basta (e tem que bastar!) a alegria de tê-lo em meu colo, o amor tão puro que compartilhamos no olhar, nas brincadeiras, nas gargalhadas, nas declarações de carinho, no cuidado diário. E a vontade imensa de que ele seja a pessoa mais feliz do mundo!

sábado, 29 de abril de 2017

O filho pródigo – Um conto bíblico






Já era quase noite fechada quando o velho subiu as escada da grande varanda na frente da casa. O filho, deitado numa rede, não deu muita atenção para o ar desgostoso do pai, cabisbaixo e suspirante. Na verdade, o rapaz sentia mesmo era uma certa irritação por aquele ritual. Ele bem sabia que as caminhadas vespertinas do pai nada tinham a ver com exercício físico, ou com fazer uma ronda pela propriedade. Ele queria mesmo era observar o movimento na estrada, se por acaso o caçula por milagre não havia resolvido reaparecer. Mesmo depois de tanto tempo.

Ao mesmo tempo que sentia pena pelo sofrimento do pai, ficava com raiva por ele não ser capaz de odiar aquele ingrato. O moleque sempre teve tudo o que eu quis, mas isso não foi o bastante. Não era suficiente para ele ter tudo se tivesse que viver sob a tutela do pai. Ele queria o direito à liberdade de comandar sua própria vida. Ele tinha tudo, menos a si mesmo.

O primogênito jamais compreenderia os motivos do irmão pra ter abandonado a família daquele jeito. Ele nunca sairia da casa do pai. Ele entendia sua posição de filho mais velho, sua importância como braço direito do pai, seu prestígio entre os empregados da propriedade. O respeito que tinham por ele ajudava a administrar o negócio e o reconhecimento que a pessoa do pai lhe dava abria as portas da prosperidade, especialmente depois do irmão tê-los arruinado a imagem e desfalcado os bens. Mas, apesar de saber do seu valor como filho, sempre o incomodava que o pai fosse mais próximo do irmão. Claro, o garoto como era mais desocupado, tinha tempo pra ficar às voltas com o pai em conversas intermináveis. Ele não. Seu amor pelo pai era traduzido pelo trabalho. Por mais que se falassem pouco, que cruzassem pela casa com pouca frequência, que ele nem soubesse tanto sobre a vida do pai, o velho sabia que podia contar com ele. Já com o irmão...

A noite finalmente chegou. O jantar foi como sempre, os dois à mesa, poucas palavras seguidas de um silêncio sepulcral. Mal se davam conta da presença um do outro. Ao final o pai quis esticar puxando alguma conversa, mas o rapaz parecia cansado, não conseguia se concentrar no assunto e logo se recolheu em seu quarto.

Já em sua própria cama o velho não conseguia dormir. O coração era só saudade. A casa tinha perdido um pouco da alegria desde que o caçula partira. Claro, tinha o outro filho, mas este estava sempre muito ocupado, muito distante. Era um bom filho, responsável, engajado, mas no fundo, o pai desejava menos empenho no trabalho e mais proximidade, mas o rapaz não entendia suas abordagens. Tão diferente do irmão! O garoto não era preguiçoso, mas se limitava a fazer o que pai pedia. Estava sempre por perto, ainda que algumas vezes não se entendessem, discordassem. Ele sempre teve um ar meio rebelde, mas o pai sabia que há tempo para todas as coisas, e que a fase da rebeldia passaria a seu tempo. Só não contava que antes disso ela seria levada às últimas consequências.

A despeito dos dias turbulentos que precederam a saída do filho de casa, o pai não guardava o menor ressentimento. Preferia preservas as melhores memórias de ter o filho junto de si. As histórias que lhe contara na infância, as brincadeiras que lhe ensinara, as confissões compartilhadas pelo filho, as longas conversas, as discussões acaloradas... Não se pode negar que o garoto o tenha magoado profundamente. Afinal, pedir ao pai que lhe dê sua parte da herança era o mesmo que ouvi-lo dizer “para mim o senhor está morto”, uma vez que partilhas hereditárias só se configuram postumamente. A dor foi grande, obviamente. E a rejeição do filho significava mais que rejeitar simplesmente a pessoa do pai, significava rejeitar tudo que o pai queria ser no filho. O rapaz não estava pronto para entender o que essa fusão significava, então o pai o deixou ir, sabendo que enquanto rebelde o menino não poderia ser plenamente filho, e que ele, por sua vez, enquanto possessivo, não poderia ser plenamente pai. “Há tempo para todas as coisas...”, ele sabiamente pensava, enquanto esperava dia após dia, em suas caminhadas vespertinas, que o seu menino aparecesse lá na curva da estrada, voltando pra casa. Porque lá no seu íntimo ele sabia que a relação estabelecida entre eles pelo sangue não poderia jamais ser rompida. 

Distante dali, em outra propriedade rural, um rapaz abastece os cochos de um sem número de chiqueiros. O mal cheiro é insuportável, tanto quanto os grunhidos dos animais sempre famintos, aguardando impacientes que a comida caia nos caixotes. Terminado o último cocho, o rapaz senta-se sobre uma pilha de tábuas enquanto observa os animais comendo. Passada a movimentação do trabalho ele percebe como está ventando frio e como seria bem-vindo um agasalho sobre aquela camisa fina. Percebe também um ruído vindo do próprio estômago. Por um instante sentiu inveja dos porcos, que devoravam vorazmente sua alfarroba. Tivesse ele coragem, pegaria um pouco para sim mesmo. Era desesperador pensar que não havia uma pedaço de pão para lhe saciar, quando há pouco tempo ele tinha a fartura de deliciosos banquetes diante de si.

Como pudera perder tudo? Ele nem mesmo sabia dizer como havia gastado toda a herança que o pai lhe dera. Tinha a impressão de ela ter evaporado de suas mãos. Assim como os amigos e as mulheres evaporaram de sua vida quando ele não tinha mais nada de valor para oferecer, ao contrário, fugindo de credores só com a roupa do corpo.

A angústia que crescia no seu coração era tamanha. O estado de miserabilidade que o jovem estava experimentando o levou à profundas lágrimas. Nem todo o dinheiro que ele teve em suas mãos, nem todas as experiências de prazer que viveu, nem todos os “amigos” que passaram por sua vida, nem toda a liberdade que conquistou foram capazes de fazer dele alguém mais especial do que fora um dia. Pelo contrário, tudo isso lhe mostrou que sua tolice era maior que qualquer coisa que ele tenha tido. Por causa dela ele se tornou o que era naquele momento. Um trapo fedido e faminto.

Olhou para sim mesmo com certo desdém, um jovem bem-nascido, educado e refinado, tratando de porcos. Que controverso! Mas quem era ele, afinal? E a resposta surgiu como um vendaval do profundo do seu interior, quase como se pudesse ser escutada além dos seus próprios ouvidos: “você é filho do seu pai”.

Ah, o pai! Como o havia magoado! A última coisa de que se lembrava dele era de sua expressão de dor ao olhar o filho se afastando pela estrada. Como poderia olhá-lo nos olhos novamente? Ele o aceitaria de volta?

Nesse momento o estômago doeu outra vez. Velho sovina aquele seu empregador! Não oferecia nem mesmo um copo d’agua aos empregados, quem dirá um prato de comida. Seu pai nunca tratou os empregados dessa maneira. Todos comiam à vontade, faziam todas as refeições na fazenda. Esse era o seu velho. Homem justo, bondoso, generoso. Não, ele não negaria ao filho um prato de comida. Quem sabe pudesse voltar como empregado? Já estaria muito bom! Teria onde dormir, o que comer, salário no fim do mês... Ao menos viveria decentemente. Estava disposto a se humilhar, pedir perdão, reconhecer a grande burrada que fizera. Era isso. Voltaria para casa!

Os dias passavam mansamente. Tudo calmo na fazenda. O velho caminhava às margens das lavouras em flor. Logo chegaria o tempo da colheita e toda aquela tranquilidade se transformaria num alvoroço só. Graças a Deus! Ao longe observou que alguém se aproximava pela curva da estrada. Um andarilho talvez, pois tropeçava nos próprios pés. Continuou caminhando, envolvido em seus pensamentos, mas à medida em que se aproximavam, o velho começou a reconhecer aquele andar, ainda que trôpego. Seu coração quase saltou para fora do peito quando finalmente reconheceu o filho.

- Oh, meu Deus! Meu filho!

Aumentou o passo e, reunindo as forças que ainda possuía, começou a correr em direção ao rapaz. Lágrimas em uma quantidade absurda jorravam de seus olhos enquanto exclamava sem parar “meu filho!”, e o peito parecia querer rasgar, pois já não conseguia conter tamanha alegria! O reencontro foi dramático. Ambos se olharam nos olhos por longos minutos e choraram alto. Tudo que tinha pra ser dito estava estampado em seus olhares e audível em seus soluções. O pai segurou o rosto do filho entre as mãos e encostou sua testa na dele. Beijou seu rosto sujo, sentiu seu mal cheiro, e seu coração se encheu de compaixão. Quando enfim se abraçaram, forte e demoradamente, tudo estava superado. Ali, à beira da estrada onde um dia trocaram o que seria seu último olhar, agora lavavam suas almas num espetáculo de arrependimento e perdão. E apenas quatro palavras podiam ser ouvidas repetidamente de seus lábios.

- Meu filho!

- Meu pai!

Finalmente caminharam juntos para casa, abraçados. Que empregado, que nada! O pai sequer deu ao rapaz a chance de dizer todo o discurso que tinha em mente. Ele já estava perdoado fazia tempo. Só não sabia disso. Para o pai ele jamais seria outra coisa que não seu filho. Agora era hora de celebrar! Reencontrara seu filho perdido, nada poderia ser mais especial que isso. Precisava chamar o alfaiate, o joalheiro, preparar um banquete!

E ao se aproximarem da varanda, lá estava o primogênito sentado na escada observando-os chegar. Ambos pararam por um instante aguardando a reação do rapaz, que apenas se levantou com um olhar não muito contente e entrou em casa. O pai suspirou e os dois subiram as escadas da varanda. “Há tempo para todas as coisas”, pensou. E entraram.