quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mãe às avessas



Ser mãe seguramente foi a coisa mais inusitada que já fiz na vida. Vivo essa experiência há quatro anos, cinco se eu incluir o período da gravidez, e a cada dia que passa, mais incertos são os meus passos nessa jornada.

Não é novidade pra ninguém que a maternidade nunca me encantou. Tive muitos sobrinhos desde muito cedo, então a convivência com crianças nunca foi uma novidade para mim. Tive um sobrinho em particular que era uma criança especial, de quem eu ajudei a cuidar durante vários anos da minha adolescência, e, a despeito de todo amor que eu sentia por ele, sua história foi uma grande desmotivação para mim em relação a filhos. Soma-se a isso a minha personalidade impaciente e acho que a minha própria natureza alheia à infância. Ou seja, eu não tenho perfil maternal.

Não foi fácil amadurecer a ideia de ter um filho, mas foi muito natural. O fato de não temos família fazendo pressão ajudou bastante. Outro fator importante foi o tempo. Nada como a maturidade para colocar nossas ideias no lugar, saber quem fomos, quem nos tornamos e o que ainda queremos ser. E foi assim, de forma completamente racional depois de dez anos de casamento que decidimos, eu e Nilton, que não arriscaríamos não formar uma família. Achamos que teríamos mais a perder num futuro sem um filho do que no presente com um. E assim resolvemos que era o momento, afinal meu prazo de validade estava pra vencer já que os trinta e cinco tinham chegado. Não houve apelação de instinto maternal, não houve aquela sensação de necessidade que dizem acontecer em algum momento do casamento, nada emocional envolvido. Apenas decidimos.

Acho que ainda é muito cedo pra dizer que foi a melhor decisão que tomei na vida e, acreditem, eu sei que é chocante para a maioria das pessoas ouvir isso de uma mãe. Afinal vivemos num mundo onde a ideia da maternidade é tão povoada de magia e encantamento que destoar disso nos torna pessoas horrendas. A verdade é que eu vivo (hoje menos intensamente) muitos conflitos interiores desde que o Felipe nasceu. Viver entre o amor descomunal que conheci ao tê-lo e a negação de mim mesma todos os dias desde então é algo com o qual não consigo lidar muitas vezes. Acho que essa aflição é muito própria do nosso tempo. Somos uma geração em uma transição histórica de valores, comportamentos, ideias, em que ser mãe se tornou apenas mais uma de nossas atribuições em pé de igualdade com tantas outras, por vezes até mais importantes. Ideologicamente não nascemos mais exclusivamente para ser mãe. Nascemos para ser o que quisermos.

Em contrapartida, é emocionante lembrar do meu estado de espírito durante a gravidez. Era incrível como eu me sentia plena em todos os aspectos enquanto gerava vida dentro de mim. Eu me sentia tão bonita que isso contagiava as pessoas ao meu redor. Elas me elogiavam! Eu estava tão segura, tão capaz, tão suficiente! E uma certeza absolutamente nova e que me espanta até hoje me invadiu naqueles dias: eu estou sendo o que eu nasci para ser. Não era uma ideia, a conclusão de uma análise, nada racionalizado. Era uma certeza sentida, vivida.

Acho que essa certeza é a grande responsável pelos meus conflitos. Porque cumprir o propósito da minha existência se estendeu para além daquela fase encantadora da gestação, e passou a coexistir com a anulação das minhas próprias vontades. A certeza virou dúvida e se reduziu a Insistir em achar, pelas experiências do cotidiano, que eu “não tenho perfil”, quando a experiência de gerar um filho me contou tão secretamente que eu existo para isso. Eu que sempre quis existir para tantas outras coisas...

A maternidade tem descortinado um mundo totalmente novo à minha frente. Novo e por vezes assustador. Um mundo de liberdade dosada, de abrir mão, de depender de outros, de descobrir que tenho habilidades e possibilidades incríveis, ao mesmo tempo que ressaltam diante de mim os meus piores defeitos, muitos dos quais me angustia não conseguir me livrar deles nem pelo meu filho. Felipe revelou o melhor e o pior de mim. E ele vai ter que conviver com isso. E isso o influenciará diretamente. E eu tremo só em pensar nessas coisas.

O que eu nasci pra ser é muito maior do que quem eu fui até cinco anos atrás. Ser alguém para si mesmo é cômodo, prazeroso, compreensível. Ser alguém para o outro é desafiador e completamente imprevisível.

Acredito que um dia olharei para o Felipe com um olhar mais seguro sobre quem eu nasci pra ser. Hoje me basta (e tem que bastar!) a alegria de tê-lo em meu colo, o amor tão puro que compartilhamos no olhar, nas brincadeiras, nas gargalhadas, nas declarações de carinho, no cuidado diário. E a vontade imensa de que ele seja a pessoa mais feliz do mundo!