quarta-feira, 28 de junho de 2017

De quem é o problema?



Outro dia ouvi uma mãe dizendo que a filha adolescente não ajuda em absolutamente nada nos afares domésticos e que ainda deixa tudo jogado por aí. Somente se for por alguma retribuição financeira ou presente ela colabora.

Quando a mãe terminou a frase, três palavras ficaram piscando na minha cabeça como que em luzes fosforescentes: ajuda, retribuição e colabora.

Essas palavras simplesmente não se adequam à realidade familiar. Ajudar é uma atitude que beneficia o outro naquilo que é uma obrigação dele, não minha. Retribuição transmite imediatamente a ideia de troca. E contribuir nos remete ao mesmo significado de ajudar, porém, agrega um componente de voluntariado. No entanto, se está condicionado à uma retribuição então está totalmente fora de contexto na fala dessa mãe.

Mas a grande questão aqui é que o problema das pessoas é muito maior do que aprender o significado das palavras e suas colocações corretas dentro de um contexto. O problema, de fato, é desconhecer o significado das relações familiares e onde cada um se encaixa dentro desse sistema.

Receio que a nossa geração tem se tornado os piores pais de todos os tempos. Ao mesmo tempo que saímos (felizmente) do extremo do autoritarismo generalizado, caímos no extremo da complacência exacerbada. Nunca tivemos tanto medo de desagradar nossos filhos, e a psicologia infantil muitas vezes nos ajuda a reforçar essa ideia – ainda que não intencionalmente – ensinando como padrão métodos de agregar diversão a todas as tarefas que propomos para eles. Então como vão aprender que as tarefas que não geram algum tipo de prazer também devem ser executadas?

Tarefas domésticas não são a coisa que eu mais gosto de fazer no mundo. Na verdade elas estão no finalzinho (lá no rodapé mesmo, depois que acabou a pauta da folha, rsrs) da minha lista de preferências pessoais. Mas estão no topo da lista de necessidades da minha família. Percebeu? Necessidades da família. Casa limpa é uma necessidade da família. Roupa lavada, passada e organizada de forma a ser encontrada com facilidade no dia a dia é uma necessidade da família. Comida bem feita (perceba, não é comida sofisticada) é uma necessidade da família. Pia limpa e seca é uma necessidade da família. Banheiro sem mal cheiro é uma necessidade da família. Carro lavado é uma necessidade da família. Quintal livre de acúmulos e lixo é uma necessidade da família.

Daí eu te pergunto: filhos não fazem parte da família? Essa lista toda não é uma necessidade deles também? Por que a mãe que passou o dia fora, trabalhando, tem que se desdobrar na limpeza da casa enquanto a princesinha está no whatsApp com as amigas? Por que o pai tem que passar o sábado cuidando do quintal, limpando a caixa d’agua e lavando o carro enquanto o príncipe joga no computador? Por que uma mãe e um pai cansados não podem contar com uma sopinha feita pelo filho no fim do dia? Por que muitas vezes chamamos parentes e amigos para o mutirão da pintura do muro e os filhos ficam de fora dessa roda?

Sabe por quê? Porque nós, pais e mães, não compreendemos ainda que nosso filhos têm responsabilidades no funcionamento da vida familiar. Porque na nossa visão distorcida de que o trabalho é algum tipo de maldição e sofrimento, queremos poupar nossa prole disso. Porque ter uma funcionária doméstica significa erroneamente que nosso pimpolhos (e nós mesmos!) não precisam sequer aprender a desvirar a meia do avesso. Porque eles ocupam posições hierárquicas na família que não são a deles (e a de ninguém, pelo amor de Deus!). Porque queremos ter os filhos, mas não queremos ter o trabalho de educá-los para a vida desde cedo.

Acho meio tarde pra essa mãe querer que a filha adolescente “contribua” se quando ela ainda era criança não foi ensinada a guardar os próprios brinquedos, a levar a própria roupa suja pro cesto, a jogar o lixo na lixeira, a guardar a mochila e o tênis ao chegar da escola, a colocar o prato e o copo sujos na pia quando ela ainda não tinha tamanho pra lavá-los. E, Principalmente, a entender que essas ações eram obrigação dela, não um favor pra mamãe. Isso se chama criar consciência.


Precisamos acordar como pais e entender que os únicos prejudicados com a ausência de educação – em todos os aspectos da vida – serão nossos filhos. E precisamos, antes deles, criar nossa própria consciência de que faz parte da vida prender a se virar e não achar que isso é uma injustiça.

2 comentários:

Luciana Reis disse...

Celinha, minha amiga, você, como sempre, muito eloquente, coerente e sensata em suas colocações.
Deus continue te usando.

Sua amiga que te ama, Lu.

Unknown disse...

Muito bom